Agostinho B. de Freitas

02 a 20 de dezembro de 1985

Apresentação
por Pietro Maria Bardi

Caso natural, para quem entrou na dança das artes, não fazer distinção entre os participantes da festa, valendo o mestre mais famoso, o amanuense (porque não acadêmico), o primitivo, todos que, bem ou mais ou menos, sabem desempenhar o seu ofício. Neste caso a insígnia para entrar no recinto é Pintura, ingresso não permitido aos penetras.

Quantos os envolvidos no movimento! Encontrei, e encontro continuamente, centenas. Mas de alguns casos me lembro com particular prazer, às vezes casos curiosos, como este que agora me leva a contar como conheci Agostinho Batista de Freitas.

Voltemos atrás no tempo, há uns trinta e tantos anos, quando ainda armava o Masp. Os boatos na São Paulo recém promovida a capital das artes, eram unânimes no espalhar a má notícia de que a performance daria em nada. Demonstrações: na vitrina de objetos históricos, desde o Egito até o Novecentos, apresentava nosso século por meio de uma máquina de escrever. E mais: intercalados às obras de Mantegna, Bellini, Picasso, Portinari, havia nada menos que telas de pintores domingueiros.

Um dos meus favoritos era, e continua sendo, o Agostinho. Encontrei-o por acaso, desenhando na calçada, diante do edifício da Light. Fácil descobrir seu talento. Conversei com o simplório, vendo seu penchant pela paisagem urbana, e combinei de lhe oferecer uma tela, tintas, pincéis e uma permissão para subir até a crista do prédio do Banco do Estado; incumbência: – Você me reproduz uma vista total de São Paulo. A resposta foi automática: – Pois não. O que me consignou foi uma obra-prima. Empresto-a para esta exposição individual do pintor. É um dos quadros que publiquei não sei quantas vezes, a começar pelo meu antigo livro “The Arts in Brazil – a new Museum at São Paulo”, para oferecer ao leitor o mais esplêndido panorama da cidade.

Constatem: tudo observado, tudo na perspectiva mais certa, detalhe por detalhe, uma visão não abstrata, nem informal, nem concreta, nem não sei qual interpretação.

Agostinho, desde aquele tempo, tornou-se meu amigo, e tudo o quanto pude fazer para ele ser conhecido, cumpri com convicção. Esteve trabalhando, sempre atencioso, paisagista nato, sempre o mesmo manifestar genuíno.

É considerado um primitivo. Para melhor definir Agostinho diria: um dos nossos ‘naifs’: ingênuo por natureza, simplificador festivo do que pinta, um mestre popular, instintivo, isolado, dono de um artificiar que, nos anos 30 chamavam, em Nova York, a ‘arte do homem comum’ ou ‘arte não conceitual’.

Trata-se de um complemento da cultura, estranho, impassível ao se desenvolver das agitações hodiernas. Agostinho é o que é: um pintor.

Obras participantes