Anita Malfatti

01 a 27 de setembro de 1991

Exposição realizada de 1º a 27 de setembro de 1991, na galeria de Ricardo Camargo e José Duarte de Aguiar, que reuniu telas da fase histórica de Anita como Rochedos (1915) e Cabeça de Homem (1915).

Ousadia e sentimento
por Radha Abramo

Anita Malfatti, uma das inspiradoras da Semana de Arte Moderna de 1922, regressa, em 1913, da Europa ameaçada pela guerra, trazendo para o Brasil uma pintura ousada. Pinceladas longas, visíveis, luminosas, anticonvencionais tingiam as figuras de seus quadros de amarelo ou de verde e coloriam as árvores de roxo ou de vermelho. Tanto a paisagem como a imagem das suas personagens transpiram sentimentos. Em todas há indícios de movimento. São extremamente expressivas. A liberdade cromática de Van Gogh e a deformação das formas de Edvard Munch excitaram bastante os artistas do início deste século, levando-os às experimentações plásticas intermináveis.

Até os anos 20, a obra de Anita (magnificamente estudada no livro Anita Malfatti no tempo e no espaço, da historiadora Marta Rossetti Batista foi chocante. Depois da Semana, participando já do grupo dos cinco (com Tarsila, Oswald e Mário de Andrade e Menotti del Picchia), ela será mais uma modernista. Embora, em 1917, tenha sido execrada pelo escritor Monteiro Lobato, não perdeu a fibra e a vitalidade. A artista-pesquisadora esmorece, porém, com o passar do tempo.

A mostra de Anita Malfatti, na Galeria de José Duarte de Aguiar e de Ricardo Camargo, exibe obras expressivas do início de sua carreira. Rochedos (1915), Cabeça de Homem (pastel, 1915) revelam a qualidade técnica inovadora da artista que também estudou nos Estados Unidos e na França. Os retratos Lima Neto (1930) e Lourdes Cardoso Ayres (1946) mostram, contudo, uma retratista à la mode da exigente correção pictórica, convencional, herdada do seu professor Pedro Alexandrino, com o qual trabalhou depois do frisson intelectualista da Semana de Arte Moderna de 1922. Por opção da tranquilidade existencial ou por rejeição aos padrões da época, Anita Malfatti gradativamente muda o tratamento artístico de sua obra, talvez vencida pelo meio cultural brasileiro, incorrigivelmente conduzido pela ousadia da ignorância.

Obras participantes

O Anjo Fardado
por Anita Malfatti

As costas do modelo começaram a se movimentar formando um sulco diagonal que ia do ombro perto da gola até o cinturão do oficial. Me lembrei depressa que o retratado nunca deve estar cônscio do interesse que desperta, tentava não fitá-lo, mas o tempo acabava, o bonde chegava à Praça e eu continuava na faina. Havia galões de ouro, verde e azuis no boné, a borda toda listadinha, nos ombros torcidinhos de galões dourados e outras coisinhas, nos punhos, credo, eram tantos que não dava mesmo tempo. Como é que eu faço, meu Deus, não consigo. O cabelo pretíssimo, glostorado, ai, preciso misturar o carmim com preto, senão não consigo o ultra preto e agora eu via o rosto meio para mim, todo inquieto, o que não queria, é o nosso moreno paulista, as mãos estou vendo mais morenas, mais um pouco de siena queimada, o rosto mais um nadinha do verde terra no ocre – O bonde parou! Saio ou não saio. Praça Marechal Deodoro! Deram o sinal, o bonde estrepitou e parou, ficou ou não fico… nisto meu modelo se levanta, olha para mim esquisito e vai saindo, olhando sempre para traz e eu atráz da Aí sim! aproveitei para pintar os galões, os vermelhões, os ultramares com verdes de esmeralda!! Eu andava na esquina da praça. A maravilha num instante atravessara a praça e eu atráz encantada. Então, no meio da confusão medonha, vi o quadro perfeito, de pé, parado, no meio do jardim ao lado da estátua. Percebi que me achava no meio de rodas de caminhões e de carros, bicicletas e de gente gritando, um horror, quando vi a visão voltar e dirigir-se em minha direção correndo, no meio da confusão! do tremendo movimento, me agarra pela mão e começa a me puxar, me convencia dizendo:

Por aqui, rodeia o caminhão, não se afoba, passe atráz do auto, abaixe-se mais sobre o paralama e aos poucos o espaço se abria e não sei como foi que me achei sã e salva na calçada do largo da praça. De novo perto das florzinhas do canteiro com ambas as mãos segurando meu rosto, abaixou-se um pouco e disse: É demais de distraída. Notei isto quando entrei no bonde… quase morreu, sabe? Eu não tinha percebido nada. Não vira perigo algum.

O anjo fardado de novo desaparecera assim de repente, no meio do canteiro de florzinhas. O que sim, desconfio, que o anjo fardado era paulista!