Cleber Machado

04 de novembro a 04 de dezembro de 1999

Visita a Cleber Machado
por Aracy Amaral

Na verdade, a busca pela originalidade e por um discurso pessoal e autêntico através do tridimensional, ou seja, da escultura, pode ser tão árduo quanto essa mesma tentativa para o pintor de nossos dias. Buscar essa expressão com a consciência de tudo o que já foi feito, já realizado, pode ser tão frustrante quanto a dificuldade de enfrentar a matéria, ou suporte. Assim, o artista deve ter uma vida interior muito rica, uma capacidade de recolhimento, de concentração muito intensa, para poder tentar superar esses obstáculos.

Talvez no campo da escultura propriamente dita seja ainda mais difícil essa busca de uma expressão que transpire individualidade pois a arte do tridimensional traz a marca do classicismo através da matéria, ou dos modismos através da multiplicidade de recursos oferecidos hoje pela tecnologia, assim como para a execução de projetos concebidos pelo artista, que deixa com raras exceções, de ser também artesão. Como então a despeito de todos esses obstáculos pode o artista chegar a uma trajetória criativa? Gillo Dorfles considera que mesmo quando a escultura moderna adquire pleno “direito de cidadania no vasto campo das formas espaciais puras e destiladas como aquelas criadas a seu tempo por Pevsner, Gabo, Bill e Vantongerllo, que são em realidade mais construções de linhas de força no espaço que verdadeiras esculturas” elas permitem, assim mesmo, que se conduza “esta arte à diáfana pureza em que toda sua organicidade – ainda presente nas estátuas futuristas de Boccioni, nas cubistas de Picasso ou de Zadkine, e naquelas puríssimas de Brancusi – chegava finalmente a sublimar-se e a se exaurir”¹.

Há também a tradicional ligação entre escultura e arquitetura, vigente através dos tempos, ou da escultura e a cidade. Mas nas cidades de nosso países do Terceiro mundo que nunca chegarão a ser de Primeiro Mundo, na implacável divisão que é um fato em nosso universo, os artistas já sabem igualmente que seu espaço é muito restrito para participar nos raros projetos de uma utópica urbanização.

O desafio da escultura atinge plenamente Cléber Machado, em busca de seu caminho. Na segunda metade dos anos 60 apresentava ele propostas de móbiles, nos quais a constante era a problemática do equilíbrio no espaço, com objetos singelos e delicados em sua realização.

Algum tempo depois surgiam projetos inusuais em seus trabalhos, combinando dois materiais não convencionais, ao justapôr a bela transparência do vidro à calidez da madeira polida, com resultados de rara força, vibrantes em sua rusticidade domada. Abordou em seguida, em mudança de rota de materiais, o ferro, fixando-se em formas absolutamente geométricas, das quais desde então não tem se afastado.

Nestes últimos anos vemos o círculo circunscrito no círculo, círculo virtual versus círculo real, jogos perspectivistas com retângulos, paralelogramos ou triângulos, ou esferas, reais ou virtuais, visualização de faces de ângulos poliédricos, jogos intermináveis de reflexos na pintura automotiva prateada, a simular a magia do espelho também virtual. Faces espelhadas, portanto, que se movem no espaço, que se constitui antes como “moldura”. Ou, conforme escreve poeticamente Marco Rodriguez del Camino: “o exterior que rodeia a escultura não é tanto moldura como eco. Seu espaço vem a ser como a água para o peixe ou, seguindo com nossa metáfora, como uma reverberação”.²

Não há inocência possível no processo de criação artística de hoje. O artista rejeita o parecer-se “com” muito embora exista uma empatia com processos de outros contemporâneos ou modernos e Cléber Machado está ciente dessas injunções. Há, contudo, inerente ao criador, o desejo, a vontade de encontrar um caminho original, a destacar-se mesmo daqueles que admira. Mas as admirações são palpáveis, e deve-se com modéstia admitir que as variações sobre um mesmo tema, a partir de formas geométricas, cumprem, segundo Federica Palomero, o papel do vocabulário e seu ordenamento estrutural matemático, o da gramática. Ainda segundo essa autora, é esta linguagem que “permite ao artista desenvolver uma relação estrutural das partes entre si, e destas frente ao conjunto, criador de harmonia”. E é essa harmonia que despreza o caos a ordem perseguida por todos aqueles que se expressam através de formas construtivas, ou na escultura, que “desenham” ou/e compõem formas no espaço. Creio que Cléber Machado persegue essa linha, batalhando com os materiais e técnicas com que trabalha, otimizando ou perdendo partido, na luta permanente frente à dificuldade de escolha, na inevitável liberdade com que atua perigosamente o artista contemporâneo.

¹ Gillo Dorfles, Il Divenire delle Arli. Bompiani, Milão, 1996, cap, “Scultura/Valori estereognosici e spaziali della scultura”, pp 126/131
² Marco Rodriguez del Camino, “El arte de la escultura: Escultura europea contemporanea”, apud Escultura Europea Contemporánea, Museo Nacional de Bellas Artes, cat. nº 846, Caracas, 1990

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