Cristina Sá

22 de novembro a 15 de dezembro de 2004

Ultrapassar fronteiras é somar alteridades
por Angélica de Moraes

O mercador e diplomata veneziano Marco Pólo desbravou a Rota da Seda no século XIII. Percorreu um sinuoso caminho marítimo e terrestre que passou a ligar o comércio da cidade-estado de Veneza às vastidões até então inexploradas da China, singrando o Mar mediterrâneo e ultrapassando a barreira das montanhas do Himalaia. Foi quando o Ocidente, espantado, afinal tomou contato com uma cultura de vastidões tão grandes quanto a distância geográfica que nos separa do Oriente. Um fascínio que, muitos séculos depois, ainda e sempre emociona, como demonstram as pinturas-colagens-monotipias de Cristina Sá.

A artista harmoniza dois mundos. Funde, em gramática visual própria, elementos culturais extraídos tanto da tradição oriental de gravuras em madeira (xilogravura) quanto da expressão pictórica ocidental contemporânea. Suas delicadas urdiduras compositivas ecoam o mundo plano da gravura chinesa, isenta dos códigos de representação da perspectiva. Ecoam motivos gráficos, sinetes heráldicos e finas caligrafias de ideogramas vindos da antiga Catai. A organização compositiva, ortogonal e modular, se faz sobre amplos espaços brancos e cuidadosa distribuição de elementos, frisando uma educação visual feita sob a influência inalienável da história da arte ocidental.

O encontro Oriente-Ocidente promovido por Cristina atrai pelo equilíbrio que a artista alcança também ao promover a fusão de outros universos aparentemente opostos: a pintura e a gravura em madeira (xilo). Enquanto na pintura há fluidez da tinta e do gesto, na gravura há uma incisão exata da matriz, que a elege e determina sem hesitações todos os elementos e todos os lugares que esses elementos vão ocupar. Na xilogravura não costumam coexistir o antes e o depois: o resultado final deve estar previsto e nítido. A goiva, obediente, aprofunda em sulcos o trajeto previamente riscado na madeira. A pintura, ao contrário, só ganha feição definitiva a partir de um exercício de aproximações sucessivas do assunto, o que permite o apagamento do indesejado, a sobreposição de idéias, o pentimento. Na pintura, a cor é fundamental. Na gravura, é supérflua.

Em seus trabalhos, a artista pincela algumas poucas formas (vasos de porcelana, potes, bambus) como suporte e trama de função para uma série de acontecimentos gráficos. dispostos ou sobrepostos em primeiro plano. São monotipias e colagens de belos papéis impressos chineses, em composições organizadas pelo contraponto entre formas fechadas e abertas. Há sinuosidades que sintetizam formas vegetais e verticalidade definidas pela disposição de blocos de ideogramas. A cor age em contraponto com a sobriedade do preto das interferências de origem gráfica. Há sintonia entre gestualidade da pintora que esboça com leveza as figuras da composição e o ritmo igualmente gestual e leve da caligrafia oriental da fina trama de golpes de pincel dos ideogramas.

É possível observar em Cristina Sá uma certa filiação a pintura de Beatriz Milhazes, o que é uma qualidade e não uma limitação. Afinal, a boa escolha de influências está na base de toda elaboração de uma linguagem própria. É bom observar, no entanto, que Cristina não faz mimetismo. Ela estabelece uma sintonia que deixa largo espaço livre para sua expressão pessoal. Assim como, por sua vez, a pintura de Milhazes nao perde as digitais pelo fato de estar sintonizada com Matisse e sua profissão de fé na pintura sedutora. Aquela pintura que escancara a beleza das cores em motivos decorativos. Algo que o pintor francês foi buscar, é bom frisar, na tapeçaria oriental e nos temas arabes.

Assim como Beatriz Milhazes, Cristina Sá adota, sem preconceitos nem tabus autolimitadores, essa vertente da arte que tem seu fulcro na ornamentação e raízes tanto na tradição barroca quanto nos arabescos islâmicos. Uma arte que corteja a retina. Mas, ao contrario de Milhazes, Cristina exercita uma paleta de tonalidades sutis e rebaixadas. A exuberância explode nos grafismos extraídos da tradição grafica chinesa, que se multiplicam na superficie plana da composição e determinam o ritmo agitado, mas contido e equilibrado, de todo o conjunto.

Ao fazer sua síntese de experiências visuais e fragmentos culturais cuidadosamente recolhidos em diversas viagens à China e retrabalhados no isolamento de seu ateliê em São Paulo, Cristina Sá criou este conjunto de trabalhos que nos convidam a mergulhar em sua herança ancestral. Herança que, uma vez alcançada por Marco Pólo, passou também a nos pertencer para sempre. Desde que, sem verdades fixas nem horizontes imutáveis, estejamos dispostos a enxergar a espessura de mundo que habita a alteridade.

Obras participantes