Ex-votos do nordeste

07 a 30 de junho de 1976

Obras participantes

Ex-Votos do Sertão

I

Por quase todas as igrejas e capelas, adros, cruzeiros e grutas de devoção do Nordeste, desde as muito próximas do litoral e para além do São Francisco, encontram-se os ex-votos de cabeças, pernas, mãos e pés esculpidos em madeira ou modelados em barro. Não se vê, como nos milagres desenhados, o relato, o depoimento, o quase-diálogo entre o devoto e o santo.

Os ex-votos do sertão perdem o texto em troca de mistério. A mesma promessa que daria na devoção urbana a fotografia, o desenho e a descrição do episódio resume-se, na devoção do sertanejo, à síntese de uma cabeça tôsca, como símbolo recôndito, traduzindo a vicissitude no objeto da graça. Qualquer que tenha sido a contingência – doença infecciosa, doença séria, doença desenganada, operação cirúrgica, vida ameaçada por inimigo, desastre, ferimento de bala, desatino, perdição e infidelidade – a representação do milagre se faz na cabeça esculpida dum pedaço de tronco ou de galho, com mestria no lavor ou muitas vezes parecendo ser a primeira e única de alguém que talha.

Há, em ambas circunstâncias, a mesma intencionalidade, a mesma expressividade. Em termos de interpretação crítica diríamos que a primeira qualidade, a mais constante, da cabeça esculturada do ex-voto do sertão é a contrição. Há, em todas, uma excessiva seriedade da fisionomia, contricta, triste e absorta.

Como existem cabeças de animais (cavalo e boi, especialmente) entre esses ex-votos, procuramos ver se nesses exemplos ocorrem qualidades comparáveis. Ocorrem, efetivamente, sem que tal implique em antropomorfismo exagerado. As cabeças de animais têm indicações anatômicas-descritivas próprias, adquirindo similitude antropomórfica mediante a intencionalidade expressional. O que quer dizer que têm a face resolvida dentro de uma veracidade suficiente, descritiva, com um enriquecimento expressional da fisionomia. Estabelecem, por conseguinte, o antigo dilema entre face (componente estático) e fisionomia (componente dinâmico).

Não será exagero dizer que nunca se supreende expressão de alegria nesses objetos. Em todos há a postura firme, a indicação suficiente, sempre atendendo a um propósito de despojamento, e uma ênfase que se traduz como atitude de reverência ou de espanto diante do divino, do abismal. O ex-voto não sorri em seu agradecimento. É a cabeça feita no tôco de madeira, comportando a carga emocional da contrição.

Do ponto de vista crítico, vale assinalar outras qualidades. Em primeiro, talvez por sua inerência de veracidade, a predominância de braquicéfalos, conforme é a condição étnica da região nordestina brasileira. Em segundo lugar, pode-se apontar o despojamento da figura. Certas regiões ainda mantêm o gôsto de diferenciar as cabeças, até mesmo em correspondência às características físicas do devoto. Não necessariamente para atingir o “retrato”, mas permitindo estabelecer indicações pessoais. Tal ocorre na iniludível indicação do sexo, do cabelo, do penteado, do uso de bigode, algumas vezes até de óculos e de tipo de traje. Nos ex-votos de corpo inteiro, menos frequentes, a cabeça é a parte importante e por isso maior, desproporcionada. O corpo quase sempre acompanha a atitude ereta e os membros superiores se resolvem sob indicação de talhos, de desenho, ao invés de modelados. Apesar do despojamento intencionado, pode-se diferir a representação de um adulto e de uma criança, de um idoso e de um adolescente, de u’a mulher feita, de u’a menina.

Entretanto, quanto maior e mais definitivo o despojamento das referências, mais rico é o ex-voto como solução plástica.

Há localidades como Canindé do Ceará, Lapinha de Mucujé da Bahia, etc., em que a devoção dos romeiros faz concentrar numa gruta ou numa igreja número elevado dessas esculturas. Formam-se amontoados de cabeças e membros numa lembrança tétrica. Interessa, por conseguinte, estimar a cabeça do ex-voto como objeto de uma manifestação estética, desde a motivação magística individual, até a estranha aglomeração aos pés da invocação, como fenômeno místico coletivo.

O ex-voto do sertão vale ser imaginado no seu habitat, desde quando ele surge nas mãos do autor da evocação da graça recebida, na romaria das estradas tristes da terra agreste, até ser posto, entre velas acesas e pronúncia de rezas na gruta milagrosa, na capela, na igreja aos pés do orago que o motivou.

Não se conhece referência de autores, pesquisadores do folclore, assinalando na produção artística popular cabeças entalhadas de ex-votos produzidas para os mercados. Em nossas indagações conseguimos verificar a existência de pessoas mais hábeis que aceitam encomendas dos devotos, semelhantes aos “riscadores dos milagres” que fazem os relatos em desenho e pintura.

O que mais diferencia uma escultura popular destinada ao mercado e aquela outra de motivo e finalidade religiosa é a qualidade pitoresca e informativa da primeira e a interioridade, a reclusão da segunda.

O que mais diferencia uma escultura popular destinada ao mercado e aquela outra de motivo e finalidade religiosa é a qualidade pitoresca informativa da primeira e a interioridade, a reclusão da segunda.

Tanto em relação às carrancas das barcas do São Francisco, quanto aos ex-votos entalhados, nenhuma filiação estilística poderá estabelecer-se, a não ser o natural paralelo com a escultura de outros grupos humanos comparáveis por similitude de estado de civilização. Não haverá, neste caso, necessidade de conhecimento mútuo, filiação consciente, de contato anterior verificável e datável. A semelhança decorrerá, entre datas e regiões diversas, apenas unida pela “alma subterrânea” (Jung) dos primitivos culturais.

Há pesquisadores que gastam a vida nas tentativas de explicação de contatos remotos, quando em face de obra artística análoga, enquanto outros estudiosos da arte dos primitivos se preocupam em revelar a razão que os faz unidos na linguagem estética de espantosa universalidade de expressão.

A notícia que nos cabe dar é exatamente esta: o ex-voto do sertão tem os seus dias contados e com ele se encerrará o comportamento arcáico da escultura brasileira.

II

Na escultura, mais do que em outras formas de arte, o comportamento arcáico encontra a sua expressividade.

No complexo histórico os períodos correspondentes ao comportamento arcáico se caracterizam pela globalidade das manifestações artísticas, unidas pelo denominador da conduta coletiva, que é a religião, e explicadas pela particularidade do culto, dos atos do ritual, prece e devoção.

Entre as comunidades do comportamento arcáico logo se verifica a ruptura do equilíbrio de uma sociedade equânime, característica particular do comportamento, neolítico, logo substituída por uma nova atitude em que o sobrenatural, concretizado na divinização de líderes, passa a dirigir o destino dos grupos.

As comunidades neolíticas transformadas em arcáicas herdam e conservam hábitos e habilitações da primeira, sobretudo a destreza artesanal, com os quais se capacitam para as construções determinadas por uma nova e insólita motivação mística. A insegurança e a carência da economia (agrícola e pastorial) extinguem a conduta neolítica. Da relação e dependência ao sobrenatural, do apelo por sua concretização ao próprio homem, forma-se uma nova atitude em que a manifestação artística – (aquela que se realiza fora da unidade lógica) – tende a abandonar a linguagem simbolística e abstrata neolítica e se apega à representação da fugura, i. é. do homem, divinizado ou em conotação ao divino.

Em qualquer acervo de cultura arcáica logo se nota a dualidade na escultura que representa de um lado o divino-personificado e, doutro modo o devoto, i. é, a criatura comum em submissão ao sobrenatural.

Excluindo-se a idéia do comportamento arcáico da periodização histórica, surpreende a sua caracterização em grupos integrantes de civilização de várias épocas, inclusive a atual.

Por ser este comentário um simples resumo, e não uma análise, indicamos o arcáico brasileiro como um diagnóstico de confronto, como uma semiótica comparativa entre o acervo universal, de objetos produzidos no curso prolongado de culturas extintas e outras permanecidas, e o acervo brasileiro de objetos produzidos pelas atitudes culturais de determinadso grupos e comunidades.

Na identificação do arcáico brasileiro, remanescente e atual, distinguimos duas ordens de valores: a primeira constituída de fenômenos – (fatos, episódios, rituais e atitudes) – e a segunda de objetos que expressam um tipo de cultura, uma determinação, e um entendimento coletivo.

Os fenômenos remanescentes do arcáico brasileiro chegam aos dias atuais através de atos, motivações e atributos das religiões africanas (em forma de sincretismo afro-brasileiro) e, também, através da religião católica, do protestantismo, do espiritismo e outros credos, de modo em que são assinalados e praticados.

O denominado “candomblé de caboclo” e seus derivados sincréticos de macumba, umbanda, etc., correspondem a mais relevante assimilação do tribal africano no Brasil, em face do neolítico indígena, incorporando o autóctone como arquétipo entre as divindades da mitologia africana e da demonologia medieval católica, remanescente, na cultura popular rural e urbana, sincretizada.

Quanto à segunda ordem de valores culturais semióticos do comportamento arcáico brasileiro, concretizada nos objetos, destacam-se a imaginária católica brasileira, produzida desde o século XVII ao nível de artesanato popular, revertendo os protótipos renascentistas e barrocos da contemporaneidade européia em figuras hieráticas, de frontalidade e rigidez excessivas. Imagens dessa prototipia são produzidas ainda hoje em áreas de remanescência arcáica (Nordeste brasileiro); os ex-votos em madeira, esculpidos sob improvisação ou sob habilitação, de profissionais solicitados (carpinteiros, marceneiros e eventualmente “santeiros” conhecidos nas regiões). A área geográfica brasileira dessa produção não está convenientemente determinada. Os exemplos depositados em locais de devoção se estendem da Amazônia à Minas Gerais e ao Oeste, sendo possível encontrá-los nas áreas insuladas do povoamento original.

A importância desse tipo de objeto está na similitude dos protótipos da escultura arcáica de civilizações milenárias, e outras permanentes, de atitude correspondente. Caracterizam-se por atributos constantes, p. ex., relevante hieratismo, síntese e maciez da forma, atitude de reverência e expressividade de contrição. Neste capítulo, considero de relevante importância a coleção de ex-votos do Nordeste organizada por Franco Terranova há 20 anos. Seguem-se as carrancas das barcas do Rio São Francisco (figuras de proa) de origem não-determinada, já mencionadas em relatos do meado do século passado e utilizadas até o findar da segunda guerra quando se processou a mecanização da navegação e do tráfico de pequena cabotagem. A principal significação das carrancas do São Francisco no estudo do arcáico brasileiro corresponde é o atributo apotropáico da figura. Figura de vigília, protetora contra o mal, amuleto da coletividade (grupo dos remeiros da barca), em atitude de defesa e agressão, caracterizada pela representação do olho exórbito, dentes eriçados, pescoço ereto e músculos retezados. Corresponde às representações similares das culturas remotas, sendo este um sinal importante para o diagnóstico do comportamento arcáico, independentemente dos processos aculturativos. Acrescentam-se ainda, determinados exemplos de escultura modelada – (barro cozido, barro cru) – eventualmente produzidos na cerâmica popular utilitária, recreativa e religiosa. (Não confundi-los com a produção artesanal regional de “cerâmica popular”, aplaudida e consumida por uma frequência urbana e turística que altera a genuinidade).

E por fim se mencionam objetos produzidos pelos artesanatos empíricos, de caráter utilitário, aproveitando os restos de materiais industriais – (embalagens e fragmentos de metais, plásticos, borracha, vidro, etc.) – construídos e propostos para o consumo das comunidades carentes de nível aquisitivo.

Dentre as várias coleções brasileiras, de entidades oficiais ou privadas, merece destaque a que Franco Terranova vem organizando desde 1952, através da pesquisa pessoal no Nordeste, Minas e região do Médio São Francisco. Tanto é numerosa como valiosa pelo caráter e apuro na seleção, correspondendo à mais representativa quanto à extensão da área geográfica percorrida.

Clarival do Prado Valadares (Rio, outubro de 1973)