Ivan Freitas

10 de outubro a 09 de novembro de 2002

Mundos Alternativos
por Olívio Tavares de Araújo

Por motivos que ainda não foram suficientemente estudados, nunca houve na arte brasileira um verdadeiro surrealismo – nem como movimento, nem mesmo como espírito. Quem andou mais perto dele foi seguramente Ismael Nery, com sua mórbida mistura de fantasia e onirismo. E há algo, também de supra-real, ou correal, na magia que envolve as caixas de Farnese. Mas a regra é como se nosso país fosse demasiadamente luminoso para conter esses desvãos mais atormentados e sombrios.

As utopias de nossos artistas tendem mais para a geometria – a qual, como se sabe desde Mondrian, também pode ser uma forma de idealismo e de escapismo.

De repente surge, na confluência disso tudo, um pintor que nos obriga a repensar conceitos e rótulos. É o paraibano Ivan Freitas. Como sua carreira se desenvolveu basicamente no Rio, convém, antes de mais nada, refrescar a memória do público paulista.

Nome respeitado desde a década de 60 – quando iniciou uma abstração matérica bem em sintonia com o momento mundial -, Ivan já expôs algumas vezes em São Paulo. Uma de suas mostras permanece, ao meu ver, inesquecível. É a que ele realizou em 1973 na extinta Collectio, apresentando principalmente objetos cinéticos com luzes, executados durante e logo após uma temporada nos Estados Unidos. Já nesses objetos se detectava o propósito específico do pensamento plástico do artista: lidar com a fantasia de uma maneira exata, límpida, impecável, suscitando o mágico por meio de estímulos sutis e à primeira vista racionais.

Havia ainda naquilo tudo um toque de “science-fiction”, como que detalhes de espaçonaves impossíveis, e o extremo requinte dos meios tons, onde predominavam os cinzas e os azuis.

Se destaco essa exposição com tanta ênfase, é porque ela ilumina, a meu ver, toda a posterior evolução de Ivan Freitas.

Agora, como antes, não há dúvida de que o artista namora nostalgias de mundos irreais, por ele imaginados e concretizados sobre telas, no recolhimento de seu atelier. Obviamente, o que hoje em dia pinta Ivan Freitas são marinhas e paisagens, colocadas sob luzes agudíssimas, cruéis, que apenas acentuam o clima insólito, a quase atmosfera de alucinação que cerca essas paragens. São marinhas e paisagens de um mundo reinventado. Sempre rigorosamente desertas, contêm em primeiro plano objetos cuja função real não é clara, mas que têm uma função pictórica importante, de projetar as sombras incisivas que pontuam o espaço.

Lembro-me, diante dessas telas, de duas coisas. Primeiro, a pintura metafísica de Giorgio de Chirico, com suas praças igualmente desertas, suas arcadas neo-clássicas e sombras inclinadas.

Segundo, de um pensamento de Pascal: “Le silence éternel de ces espaces infinis m’effrait”. Há qualquer coisa de terrivelmente belo, de simultaneamente tranquilo e atemorizador, de iminência de crise, nessas reinventadas paisagens. Vejo-as, também, como possíveis cenografias para momentos altamente dramáticos de óperas, para clímaxes orquestrais sobre os quais pairam os agudos da heroína.

E, no entanto, como é ao mesmo tempo simples e misterioso o mecanismo da criação!

Ex-moleque de praia nordestino, Ivan se reporta à luz real de sua infância para recriar as luzes de palco de seus quadros. Mais ainda: é absolutamente fiel consigo mesmo e com sua mais antiga tradição. Antes de se mudar para o Rio, em 1958, o adolescente Ivan conhecia reproduções de obras de Dali e Magritte e era apaixonado por elas.

Chegou a pintar algumas paisagens no espírito desses mestres. Vi-as, e, mais que influência, posso assegurar que elas revelam afinidade, parentesco espiritual, uma identidade familiar da qual Ivan Freitas, por força das circunstâncias e da evolução da arte a seu redor, foi-se afastando. Por isso levantei, no início deste texto, a questão de uma vertente surrealista entre nós. Curiosamente – quase paradoxalmente – poderíamos dizer -, creio que o límpido e equilibradíssimo Ivan Freitas, com toda sua trajetória passada racionalista, a representa melhor, e com maior nível de qualidade, que qualquer um dos muitos desenhistas de índole fantástica que existem por aí.

Eis o que me conquista, definitivamente, na pintura de Ivan Freitas. Sua capacidade de propor mundos alternativos, embora visualmente fundados nos nossos, nos quais mergulhamos de cabeça, arrastados por uma poderosa e inexplicável carga simbólica, para um exercício de eficacíssima catarse.

Obras participantes