John Graz

08 a 21 de novembro de 1976

Tropical, não tropicalismo

Deverei confessar uma surpresa diante dos últimos quadros de John Graz. O artista entregou-se a total diversificação da temática, numa inteira liberdade de opções, que, parece-me, nunca atingira. Estamos mesmo diante de um múltiplo repertório, que é o que primeiramente causa impacto, pois dá o artista aos seus temas uma primazia inteira, tanto na captação do espaço e sua visualização dentro da tela, como na libérrima colocação, nesses retângulos, de figuras e coisas.

Não que a pintura pouco conte, nestas alturas do tempo, para Graz. Ele efetivamente tem a sua palheta e esta é a sua marca, pela tonalidade expressa, toda feita de tons baixos. Assim, quando registra a natureza, a paisagem, a fauna, terras e objetos, condiciona-os a uma luz que não faz concessão alguma aos tropicalismos. Ao contrário, numa contenção vigilante, natural nele, o pintor se limita a prestar uma homenagem ao espetáculo cambiante da terra, da fauna e da flora, sem ceder um milímetro ao colorido. Seu verde é dele mesmo, como os seus terras, os seus vermelhos, os seus azuis.

Trata-se, portanto, de uma pintura que extrapola a realidade por vários desvãos de espontaneidade, ao configurar os espetáculos sem restrições, ao contrário… O que devemos ver nele, é uma inteira liberdade no enfoque das situações, quando seus pássaros e seus cavalos se comportam com uma dinâmica imaginosa, destruindo as leis que os condicionariam, para dar, pelo movimento, uma idéia maior da metáfora intensamente animada. Não caberia exigir mais desta pintura, cujo aparecimento em S. Paulo acha-se ligado ao movimento-marco da Semana de Arte Moderna, quando o artista deu sua contribuição à arrancada dos jovens – juntamente com Vicente do Rego Monteiro, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, E. Di Cavalcanti, Victor Brecheret e outros – ele também com toda a audácia jovem, sem medir conseqüências, sem se prender a convencionalismos. Estamos diante do mesmo olhar abrangente, que se prende amorosamente à flor ou voa com as asas e corre com seus cavalos fantásticos. E que nos merece o reconhecimento dessa fidelidade.

Geraldo Ferraz (1º de outubro de 1976)

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