Maria Helena Chartuni

18 de outubro a 09 de novembro de 1984

Introdução

Desde muito jovem, ao lado de meu irmão Ralph, trabalhei no setor do mercado das artes participando à sua hoje promissora afirmação.

Proponho-me agora oferecer uma contribuição, dando preferência à apresentação de elementos ainda não bem apreciados na praça, os que por uma ou outra razão operam isolados.

É significativo que se inaugure a Galeria com uma mostra de pinturas de Maria Helena Chartuni a qual, apesar de ter exposto nas Bienais e em outras manifestações internacionais, depois de longa ausência nas exposições aceitou nosso convite.

Nos propomos operar apresentando artistas e iniciativas de possível interesse, no conhecimento e reconhecimento de personalidades nas quais acreditamos.

Ricardo Camargo

Obras participantes

Apresentação

Quem escreve teve a sorte (posso inscrevê-la como singular e pioneira na América do Sul) de planejar e realizar um museu, em um tempo de prolongado crepúsculo no que se refere às atividades das artes.

Procurei reconsiderar o esplêndido ativismo da Semana de Arte Moderna de ’22, reformar em novos modos aquela ação, incentivar, difundir e abrir caminhos, numa palavra: popularizar as artes. Satisfeito, apesar de encontrar os habituais ‘carros antes dos bois’, estranhas intrusões e aproveitadores, posso dizer que quando o Masp comemorou dignamente o cinqüentenário da ‘Semana’, já operava na praça uma geração de jovens que permitia, finalmente, constatar o crepúsculo alegrado por lampejos.

Misturada com os mestres da ‘Semana’, andou se afirmando uma geração de artistas inquieta, ignorando até os comportamentos dos modernistas, com sintomas de revolta tendo como alvo vencer a Academia e tudo o mais que ainda parecia superável, numa corrida para expressões de novidade, desejo de abertura, às vezes exagero, propondo as últimas tendências das vanguardas estrangeiras.

Se notava a simpatia pelos pintores do Santa Helena, porém o que mais parecia empolgar os jovens era o espírito de renovação, o participar de um novo momento em que se improvisavam novos museus, galerias, centros culturais, revistas e até se delineava um mercado, sem contar o lançamento da Bienal.

Este preâmbulo é para fazer saber que, ao longo da minha gestão no Masp foi normal apresentar jovens do Brasil inteiro, como de resto, revelar personalidades esquecidas na confusão do atribuir valores.

Hoje, continuando na tarefa, tenho o prazer de inaugurar o novo Studio José Duarte de Aguiar, com uma mostra de 14 pinturas de Maria Helena Chartuni, elemento isolado que, através de um paciente persistir conseguiu, no labirinto das ocasiões, afirmar um jeito próprio de se comunicar.

Os visitantes encontrarão uma artista independente que opera a seu bel-prazer, despreocupada das circunstâncias do mercado, pois trabalha numa profissão complementar da pintura: a conservação e restauro do acervo do Masp. E quando necessário, assume a tarefa de atuar em outros setores, como se deu na recomposição da imagem de Nossa Senhora Aparecida, terracota que foi esfacelada por um louco. Trabalha também com escultura como se vê no monumento ao papa João Paulo II no bosque a ele dedicado em Curitiba.

Me parece certo lembrar isso para confirmar que as aplicações de Maria Helena procedem de um sério e volitivo empenho.

Seu isolamento, sua ausência das conversas locais, seguindo e refletindo nas próprias convicções, sem presença na corrida inútil para se fazer notar, é próprio do seu caráter. Caráter que o apresentador conhece perfeitamente, através de um vintenal de amizade. Foi normal acreditar na sua arte desde o primeiro encontro, acolhendo mais tarde na Pinacoteca suas primeiras obras, posso afirmar, superando a norma museográfica de dar importância somente aos artistas consagrados.

As primeiras manifestações de M.H. foram pinturas-objetos, um jeito de combinar plástico, singulares anotações de fatos do dia, incisivas revelações de casos antropológicos, sociais e políticos: de ‘Maternidade’ à ‘Marilyn Monroe’ e à ‘Che Guevara’. A linha de partida se orientou, agora, para o acerto de uma conclusão de fatos de uma realidade recriada pelo próprio talento, emergindo em opções originais: composições a serem consideradas de uma linguagem que já foi notada no exterior como inteligível por alusão a formas coerentes como o opinativo da representatividade de um mundo a ser anotado, tendo em conta mudanças, anomalias e tudo que no lembrado labirinto sem portas favorece a imaginação, a ficção, a lógica: um realismo envolto de maravilha.

O visitante vai descobrir nas telas investigações metafísicas ou melhor, ontológicas, indagantes do simbólico das figurações postas em cena, uma realidade rica em interferências, intuições e até o jeito de um surreal, o que andou se definindo ‘obra-aberta’, acentuando as ambigüidades nas respostas a quantas interrogações possam surgir por parte do argüidor: a nova poética de representar pontas de impulsos aparentemente indeterminados, porém bem certos, como se verifica na unidade de um modo de ver inconfundível, tentativa e consecução de anotar um querer próprio, formativo de expressão e, ao mesmo tempo, manifestar um sentimento próprio.

Se passa da crônica à crítica sem perceber, e, na escolha dos tantos sistemas de orientação, se recorre a Baudelaire que aconselha julgar passionalmente, quase exclusivamente, compartilhar o que a obra revela, compreender os elementos formais, insistência na possível compreensão do seu significado original.

Desde o início da artista, tinha notado a atenção às cores, às formas, às imagens de uma realidade sempre renovada e recomposta, tendendo a uma sintonia entre o representado e o observador. Mais uma vez o se entender, compreender; visitante e artista, a um só tempo participantes e resultado: a fantasia vindo em auxílio para definir o que não sabemos definir.

No evolver da forma e das contendas, hoje em desuso o ‘Ut pictura poësis’, vale um novo conceito, não mais literário: o artista atinge diretamente no dia-a-dia, uma nova poética e uma subjetiva representação do que se passa na vida, o pintor definindo o quanto resolve mostrar. Eis nesta mostra, uma destas novas poéticas. Porém fiel à tradição do parentesco entre pintura e poesia, dado que já me referi à metafísica, me parece que Maria Helena, conscientemente, espia de uma das tantas janelas do labirinto, conotações sociais, embrulhadas platônicas de personagens, encostamentos de animais reconhecíveis e de sua criação que, não sei porque, ocasionalmente me fazer pensar nas tão discutidas ficções de Fernando Pessoa, as que ele denominava ‘autopsicografias’: evidentes os paradoxos lógicos condicionados, às vezes, por algum sinal alusivo de complementação irônica como se vê, de resto, no retrato desde prefaciador.

P. M. Bardi