Maria Helena Chartuni

09 a 31 de maio de 1989

Viagem a Persona
por Ettore Camesasca

Cada um de nós é mais de um, são muitos,
é uma prolixidade de si mesmo.
Fernando Pessoa

Conheci Maria Helena no início dos anos ’70. Naquele tempo, depois de uma experiência abstrata, ela concluía sua homenagem à Pop Art, empregando meios que me impressionaram pelo desejo de mostrá-los acres e até desagradáveis. Naquela agressividade pré-ordenada a pintora procurava um caminho próprio, feito de imagens construídas, ou disseccionadas, através de planos agudos e cortantes; alguma coisa como expandir-se em ecos de figuras humanas e animais- – traços de quanto cada ser vivente difunde no espaço, estando as idéias científicas e filosóficas bem marcadas na autora, ou talvez pedaços de confissões arrancadas à força, também dos animais, que afinal eram mais humanos que tantos homens e mulheres. Um Auto-Retrato de 1980, assim executado, está na entrada da casa de Chartuni: advertência para os visitantes, cruel e honesto.

Na segunda parte dos anos ’80 os ecos tendem a desaparecer, enquanto as figuras de cada quadro crescem em número dando espaço a composições mais articuladas, mas ásperas, se possível, e seguramente mais vitalmente ambíguas. Na pintura A viagem de 1987, os viajantes são três, ou estamos diante da representação tripla de um único viajante? Opto pela segunda hipóteses. O que confirma a escultura Persona de 1988.

Esta Persona, o trabalho mais recente de Maria Helena ao tempo de nosso último encontro, me surpreendeu e me emocionou. Antes de mais nada, pelos aspectos geométricos. Entre os pintores e os escultores das duas margens do Atlântico não são poucos, hoje, a interessar-se pela geometria; porém muitas vezes se afunda em cálculos que têm o sabor enferrujado da régua e do compasso, e que neutralizam a atualidade do empenho. Ao contrário, nossa artista é isenta de manias do gênero; sem retardar o redescobrir, procede livre em campos novos. É a sua missão, como aquela dos cientistas e exploradores.

Na origem da corrente geométrica percebe-se o desejo de clareza e, também, de invadir novos espaços, causando grande alarde com a palavra ‘dimensão’: pintura de duas dimensões, ou três; escultura de três dimensões, ou quatro ou mais… Cinqüenta anos atrás os críticos de arte fizeram grande falatório sobre a quarta dimensão. Todavia não me recordo nenhum sequer que assumisse a briga de explicar a expressão nem em termos objetivos (as teorias do matemático Hermann Minkoski) nem em termos subjetivos. Aqui a usarei de modo muito pessoal, tendo consciência de que se trata de utopia improvavelmente concedida às nossas capacidades sensoriais. Para mim, então, a quarta dimensão equivale a grandezas infinitas, incomensuráveis, que se pode somente presumir através de dimensões finitas, mensuráveis. Percebo uma sugestão na Persona de Chartuni; onde o contínuo e sempre diverso refletir-se de formas em outras formas, criado pelo escavo interno da estátua, abre espaços infinitamente maiores do que aquele delimitado pela geometria externa do bloco de poliéster.

Poder-se-ia discutir longamente sobre este invólucro geométrico, capaz – notaram? – de levantar suspeitas acerca do postulado das paralelas, base daquela geometria euclideana, ou geometria tout court, que permanece fundamental em nossas percepções dos volumes, do mundo visível enfim. E poderia dizer muito sobre o próprio emprego de materiais plásticos, nos quais vários bem-pensantes vêem o motivo maior da hodierna decadência do gosto. São duas transgressões que contribuem, sensivelmente, para o fascínio da Persona. Transgressões (agressões à lógica comum) apenas prováveis. Mas também as dúvidas e ilusões têm seus atrativos; como aqueles em que a quarta dimensão seja, verdadeiramente, reconhecível.

O que contribui mais para o êxito da escultura em argumento é, obviamente, a sua carga artística: o resgate da matéria (antes de mais nada ‘não nobre’, diferente do mármore, por exemplo), a qual resulta em movimento de formas luminosas, puramente imateriais. Em arte, sabe-se, não contam as cores dos tubos ou o mármore, ou o poliéster, mas os pensamentos a transmitir que são extraídos do executor.

Devemos, por este motivo, perguntar a que coisa visa a operação em que surgiu a Persona. As teorias acadêmicas, codificadas durante o Renascimento, exigiam que uma boa estátua apresentasse muitas (alguns diziam quatro, alguns oito, alguns trinta ou talvez setenta e cinco) visões (pontos de vista) diferentes e todas válidas do ponto de vista estético, isto é, dotadas de consistência plástica. Creio ser difícil quantificar as visões “úteis” da Persona, que se multiplicam com as mais leves variações de luz. Maria Helena quis jogar ironicamente com a velha Academia, demonstrando que são infinitas as visões possíveis?

Talvez fosse assim se cada visão não assumisse o significado das tremendas confissões recordadas acima. Agora, porém, não mais deformadas com fúria de temas definidos no bem e no mal, deixando emergir através do lento giro do sol (as esculturas devem ser vistas ao ar livre) na Persona, de delineamentos clássicos, aparentemente isentos de culpas e, absolutamente, de paixões. Contudo resultam metarmofoses não menos atrozes que nas pinturas, mas em quantidade e variedade inconfrontáveis. O trabalho de escavo feito dentro do poliéster adquire valores simbólicos imediatos, de penetração no humano. E o fato de manifestar as inquietantes metamorfoses é um evento natural – a luz de cada dia, espalhada em toda parte – determinam um grau de persuasão quase fatídico, a ponto de envolver a todos, intimamente e inevitavelmente.

Obras participantes