Maria Lucia Panicucci

13 a 31 de março de 2001

São Paulo na pintura de Maria Lúcia Panicucci
por Alberto Beuttrnmüller (da Associação Internacional de Críticos de Arte)

“Nosso tempo é o único que escolheu como nome um adjetivo vazio: moderno. Como os tempos moderno estão condenados a deixar de sê-lo, chamar-se assim equivale a não ter nome próprio” (Octavio Paz, em Signos em Rotação). O texto de Paz aqui inserido tem o propósito de alertar o leitor para o quão tem sido difícil para a crítica realizar seu discurso. Notadamente por conceitos vazios como este, apesar de que “moderno” pode ser muito bem identificado em reflexão mais profunda. Maria Lúcia surge na paisagem da arte paulistana com obra figurativa, memorialista e sensível, ao retratar São Paulo; observadora refinada à procura de uma cidade que a cada dia nos escapa, graças às suas metamorfoses, cidade que, em perene mutação, encarna o espírito “moderno”, do novo, da novidade, espírito este que, em tais mutações, o tempo só se afirma para negar-se e só se nega para reinventar-se e ir mais além de si – a urgência brutal, a iminência imediata do aqui e do agora.

Há duas formas de observarmos uma obra de arte: a primeira visa à sua linguagem e a analisa a partir da sua estrutura estética; a segunda, que lhe é externa, procura interagir com a sociedade que a gerou. Tentaremos aqui fundir as duas formas, apesar de esta análise ter espaço exíguo. Maria Lucia Panicucci faz de sua pintura um ensaio visual acerca da cidade, ensaio em que nos propõe uma visão memorialista, ao captar a urbe justo quando ela deixa de ser rural para urbanizar-se e transformar-se em uma cidade industrial, ora captando monumentos antigos, ora os “modernos”, em um clima de congelamento do olhar do momento. Sua linguagem visual visa mais à forma que a cor, privilegiando a arquitetura dos monumentos, pintura “lavada”, a traduzir o estado d’alma de uma cidade que já não há. Vamos à história.

Os pintores da então Paulicéia Desvairada sempre a pintaram como cúmplices da época em que viveram e a documentaram quando ascendia rumo à industrialização. Tarsila pintou fazendas de café; Volpi, o Cambuci, onde viveu; Rebollo, arredores de São Paulo, entre a urbanização que nascia e o ar bucólico ainda das chácaras do Morumbi; Mário Zanini, as “marinhas” da represa, assim por diante. Podemos dizer que nas décadas de 20, 30 e 40 – os pintores retrataram a periferia, de forma centrífuga, fugindo do centro da urbe, onde sucedia a urbanização; como disse Miguel Chaia no seu estudo “As Dimensões Urbana e Industrial na Pintura Figurativa Paulista” (Traço Galeria de Arte, s/d). A pintura migrou da zona rural para o subúrbio, só depois alcançou o centro a partir dos anos 60, após a industrialização da cidade nos anos 50 – com a instauração da indústria automobilística e a fundação da Bienal de São Paulo, criada por Francisco Matarazzo Sobrinho, um industrial.

Outra geração de pintores paulistanos viria somar-se às que iniciaram esta trajetória, a partir dos anos 60, cada qual com sua visão da cidade em que viviam. Esta nova figuração sofreu a influência da mudança radical no centro propulsor das artes no mundo, quando o poder artístico passou de Paris para Nova York. Como consequência, a Pop Art, nascida na Inglaterra, cujo pai era o inglês Richard Hamilton, foi assumida pelos norte-americanos na década de 60 e se espalhou pelo mundo. Em São Paulo os pintores criaram uma metrópole urbano-industrial híbrida, já que São Paulo não atingira a industrualização dos EUA. Os pintores paulistas fundiram e confundiram São Paulo com Nova York. A tais pintores quero acrescentar mais a visão de Maria Lúcia Panicucci. Se Wesley possui uma visão erótica de São Paulo; Tozzi a vê com o colorido simbólico da HQ ou da propaganda usando a retícula da fotografia e tinta industrial. Para Bavarelli a cidade possui a intimidade densa da tragédia, drama e comédia, tudo misturado à ironia de sua visão, que vê a partir da arqueologia urbana. A visão de Maria Lúcia se aproxima mais das de Newton Mesquita e de Gregório. Mesquita é cronista e documenta a cidade em seu dia a dia; Gregório a vê com a solidão poética dos deserdados e a descarna em sua solidão.

O processo criativo de Maria Lúcia Panicucci parte da fotografia, mas capta a cidade já como memória. São Paulo é vista pelos monumentos – museus, espaços culturais, avenidas e ruas, e se entrevê prédios e ruas como cicatrizes em meio ao caos, este caos que não pára. Certos monumentos já foram o orgulho da cidade – a Estação da Luz, saída dos trens da velha S. Paulo Railway, estrada que os ingleses construíram aqui e lá está até hoje no lugar, diante da Pinacoteca, ambos monumentos à pujança de uma cidade que já não há. A pintura de Maria Lúcia esconde mais que revela, oferecendo-nos a metafísica do olhar e, ao mesmo tempo, o caráter da cidade que não se revela em uma primeira mirada. Esta urbe antiga, que nos escapa, interessa ao olhar da pintora. Ela venda e desvenda os seus interior e exterior, em cores esmaecidas, nas quais o correr da tinta dá o clima de adeus, saudade e decadência, e parece mesmo que a cidade se vai esvaindo aos poucos de nossa memória e já não há.

Obras participantes