Mercado de Arte 16

11 de novembro de 2019 a 20 de dezembro de 2020

Homenagenm 120 anos do nascimento de Vicente do Rego Monteiro

Rego Monteiro, fabricante de clássicos
de Olívio Tavares de Araújo

De tempos em tempos, nosso caro e eficiente Ricardo Camargo inclui dentro de suas exposições uma pequena homenagem específica. Concentra os refletores (literal e figurativamente) sobre as obras de algum artista histórico que, por algum motivo, é, naquele momento, merecedor de particular atenção. De imediato, lembro-me da passagem, aqui, de Brecheret e Ismael Nery. Prosseguindo dentro do modernismo brasileiro, chega hoje a vez de Vicente do Rego Monteiro, cujos 120 anos de nascimento
comemoram-se neste 2019. Em meados da década de 1960, o Prof. Pietro Maria Bardi, o bravo primeiro diretor do Museu de Arte de São Paulo – que todos tratavam assim, deferentemente, como os jogadores de futebol tratam hoje seus técnicos –, omitiu o nome de Vicente num livro sobre arte brasileira. Questionado, respondeu: “Eu conheço todos os artistas brasileiros. Esse nome não existe no meu catálogo”. Disso resultou uma aproximação entre Monteiro e Bardi, que escreveu uma carta de desculpas ao artista, em Paris, e acabou organizando sua primeira retrospectiva, em 1966, no próprio MASP.

Mas se nem Bardi sabia dele, podemos ter certeza de que ainda menos o resto da intelectualidade brasileira. Rego Monteiro fora um dos participantes da Semana de Arte Moderna de 1922, mas depois disso ficou praticamente esquecido, devido ao fato de que, entre 1911 e 1957, morou mais de trinta anos em Paris. Aliás, estudou e começou a vida artística em Paris, para onde sua mãe se transferira com os filhos em 1911. Fédora, sua irmã mais velha, ia estudar pintura. Vicente (que nasceu em 1899 no Recife, Pernambuco) também começou a frequentar a Academia Julien, e em 1913 conseguiu precocemente expor no Salon des Indépendents. Esteve no Brasil mas já voltara a Paris quando aconteceu a Semana, em São Paulo, vindo dividir a história da nossa arte. Suas obras tinham sido deixadas com um amigo. Geograficamente, tornou-se então um artista europeu, um nome sem maiores glórias internacionais mas um profissional respeitadíssimo.

Ao longo dos anos de Paris, Rego Monteiro veio algumas vezes ao Brasil; ficou quatro anos, de uma feita, oito, de outra; passou aqui a Segunda Guerra mundial. Após a retrospectiva bardiana de 1966, foi- -se tornando conhecido em sua pátria. Na década de 1970 chegou aos leilões, que surgiam como espaço privilegiado, e suas qualidades vieram à tona. Sua estrela as cendeu. Em 1970, morreu subitamente no aeroporto de Recife, no momento em que ia embarcar. Um grande livro publicado em 1994, no Rio, e uma grande retrospectiva em 1997, no Museu de Arte Moderna de São Paulo acabaram de solidif icar sua posição. Sem fazer alarde, Monteiro foi um dos pioneiros no interesse específico pelo Brasil, que percorre e se torna o grito de ordem de nosso modernismo, o qual defendia uma arte nacional, se não nacionalista. As culturas indígenas, em especial a marajoara, fornecem-lhe temas e formas para a produção pré 1922. Sua obra criticamente mais prestigiada e mais disputada, no mercado, nem é a dessa fase precoce nem a mostrada na própria Semana – aliás, bem diferente da que conhecemos. É a obra que se segue imediatamente à Semana e vai até os anos 1930.

Na década de 1940, Rego Monteiro se dedicou muito à poesia e quase abandonou a pintura. Só após regressar de vez ao Brasil, na década de 1960, passou a se dedicar inteiramente a ela. Sua produção dos anos 60 inclui a adaptação ou refeitura de quadros antigos, perdidos num incêndio, e a pintura de quadros novos fortemente marcados pela linguagem dos anos 1925/1930, que ele reedita. Não foi ele o único, entre os artistas modernos, a proceder assim, e esses quadros não são, evidentemente, menos autênticos. Se custam mais barato, deve-se a peculiaridades do mercado, que estabelece seus mitos e comportamentos. Não são arte menor, como fica evidente nas obras desta homenagem. Tematicamente, a pintura de Rego Monteiro registra bastante bem sua época, o mundo ao redor, e contém também temas permanentes, como os religiosos; era um homem de fé. Na verdade, no momento em que a questão da nacionalidade ferve no Brasil, afasta-se dela. Ao lado de crucificações, descendimentos da cruz, pietás, fugas para o Egito (há duas nesta exposição, uma datada de 1924, da fase áurea), surgem nus femininos, mulheres com bichos, esportistas, jogos, músicos, operários, figuras típicas do tempo, em Paris.

O que há de comum a tudo isso, e o mais maravilhoso de Rego Monteiro, é a linguagem pictórica, seu estilo definitivamente original, que não se parece com o de nenhum outro artista, e com o qual o de nenhum outro artista parece. Em seus primeiros anos na Europa, interessara-se muito pela escultura, chegara a praticá-la. O tratamento que, a partir dos anos 20 e poucos, dá às figuras, na pintura, parece torná-las tridimensionais, escultóricas, com volume e peso. Como regra, utiliza poucas cores, predominando tons de ocre e marrom, com contornos e sombreados pretos, que sugerem a profundidade, o relevo. É a linguagem que faz dele um mestre. Cria uma obra sóbria e majestosa que deixa nitidamente transparecer a admiração pela arte antiga, especialmente a geometrização anti-realista da escultura egípcia. A rigor, o temperamento de Rego Monteiro tem mais de clássico que de revolucionário. Era um trabalhador, não um inspirado. Ele mesmo o disse explicitamente. “Eu planejo o quadro como um arquiteto. Eu uso cálculos sucessivos até achar a linha final para a construção definitiva. O quadro se fabrica, se constrói, como uma casa. Esse negócio de falar de inspiração, só no tachismo e no expressionismo, aonde o artista vai com o corpo e a cara, com tudo, improvisa. Mas eu acho que o artista, depois do cubismo, constrói o seu trabalho”. Dentro desse espírito apolíneo de controle e equilíbrio é que Monteiro se prova um fabricante de clássicos.

Obras participantes