Mercado de Arte nº 13

12 de novembro a 20 de dezembro de 2008

Mercado de arte 13, uma mostra contra a crise
por Ricardo Camargo, colaborou Roberto Comodo

Contrapondo-se a crise financeira internacional, no momento mais volátil da economia mundial, quando tudo o que parecia seguro evapora-se no ar, num gesto de ousadia a Ricardo Camargo Galeria realiza a 13ª  edição  do seu Mercado de Arte, que exibe um notável e diversificado acervo de 110 obras de mestres de arte moderna e contemporânea brasileira. Enquanto ações despencam nas Bolsas de valores e papeis derretem nos bancos, obras de arte constituem-se hoje, mais do que nunca, num porto seguro solido, que incorpora a criativa trajetória  de seus autores e valoriza-se ao  longo do tempo.

Fiel aos seus princípios,  A Ricardo Camargo só viabiliza uma mostra do Mercado de Arte quando dispõe  de obras inéditas ou que estejam fora de circulação.  No caso desta 13å edição, dezenas de exemplares extrapolam este conceito. A começar pelo oleo Negra, pintado pela modernista Tarsila do Amaral em 1940 como segunda versão de sua emblemática Negra, de 1923, e exibida antes em grandes exposições, como Tarsila, Frida Khalo, Amelia Peldez,em 1997, da Fundacion La Caixa, em Madri e Barcelona, e Negro de Corpo e Alma, na Mostra do Redescobrimento, em 2000.

O moderno iconoclasta Flavio de Carvalho  comparece na exposição com um expressivo  Retrato, guache de 1937. Carlos Prado, primo de Flavio de carvalho e seu companheiro de ateliê juntamente com  Antonio Gomide, assina os 12 desenhos originais do álbum Memorias sem Palavras – Infância, raridade de 1954 realizada na Suíça, Já o gênio de Alfredo Volpi surge no guache Teto, de 1956, estudo definitivo da fase concreta dessa pintura, inspirada nas igrejas mineiras. Volpi também resplandece na flutuante tempera Mastro Negro e Vermelho, de 1969, enquanto Alberto da Veiga Guignard encanta com o óleo Alto da Serra, fantástica paisagem de 1960.

Ao lado aqui de outros expoentes da arte brasileira – como Di Cavalcanti, Pancetti e Ismael Nery – Aldo Bonadei, um dos pioneiros da arte abstrata no Pais, destaca-se com a obra Antena, premiada no 1º Salão  Paulista de Arte Moderna, em 1951. Quase da mesma época, reduz a pintura gestual e abstrata de Antonio Bandeira, no delicado quadro La Ville Jaune, de 1954, preciosidade pintada em Paris. Entretanto nos anos 60, a densidade e o lirismo do abstracionismo nacional podem ser vistos na grande tela de Manabu Mabe, Ameaça de Vermelho, de 1961, e na de Arcangelo Ianelli, Branco, que participou em 1965 da mostra Latin-American painters and Paintings in 1960, no Museu Guggenheim, em Nova York.

Fora desta sequencia, a vanguarda de Wesley Duke Lee já florescia irônica e precisa, como se pode notar na dadaísta Composição de Um Movimento Rosa, de 1952, exposta na II Bienal do MAM de São Paulo, em 1953/54, comemorativa do 4º Centenário da cidade. Entre outras obras, Wesley brilha com o psicanalítico Retrato de Meus Pais, de 1970. que esteve na exposição Iconografia Botânica da Galeria Ralph Camargo e na retrospectiva de sua obra no Masp, em 1992.

Aluno de Wesley, Luís Paulo Baravelli se destaca com o raro e pioneiro trabalho Em Rio Claro, de 1968, relevo de parede realizado com madeira balsa, acrílico e formica. Vista em sua primeira apresentação na Galeria Art-Art, só agora a obra retorna ao mercado. A vanguarda das décadas de 60 e 70 esta representada por obras de Carlos Vergara,  Antônio Dias, Claudio Tozzi, Jose Roberto Aguilar e Tomoshigue Kasuno. Neste segmento desponta a clara contestação politica contra o AI-5 de Samuel Szpigel (Quatro Patas),Antonio Henrique Amaral (Pressões e Cacho de Bananas) e Roberto Magalhaes (Revolver), objeto com pinturas que esteve nas históricas mostras Opinião 66 e Nova Objetividade Brasileira, no MAM do Rio de Janeiro, em 1967.

Do mesmo período, três obras antológicas de Rubens Gerchman se sobressaem: Paisagem, escultura de letras e palavras em aço; O, pintura e cores na tela, ambas realizadas em Nova York em 1971/72, e a surpreendente e tropical Caixa de Família, de 1968. bem mais recente, o objeto/escultura Ed Vida, montado em cima de um skate, realiza a síntese lúdica e solar da trajetória do artista.

Esta edição Do Mercado de Arte ainda traz obras inéditas da década de 70, como uma escultura-mobile de Amélia Toledo, e chega aos anos 80 com duas magnificas pinturas sobre seda e algodão de Leonilson. Assim como procurou recuperar a arte modernista e, em seguida, a vanguarda tropical dos anos 60, a Ricardo Camargo Galeria empenha-se também em resgatar artistas brasileiros de qualidade, esquecidos do mercado, mas que pairam acima dos modismos. Encontra-se nesta linhagem, entre outros, Eugenio Sigaud, Domingos Toledo Piza, Babinski, Marcier e Rosso Osir.

No inicio da atual crise financeira internacional, o tradicional banco de investimentos americano Lehman Brothers faliu. Restou-lhe um acervo de 3.500 obras de arte. O fato remete a um dos sábios conselhos que Pietro Maria Bardi, criador do Masp, costumava dar aos seus amigos e discípulos, como este galerista; “É nas grandes crises que se fazem grandes coleções, que se transformam depois em patrimônio palpável”.

Obras participantes