Miguel dos Santos: pintura e cerâmica

09 a 30 de setembro de 1987

Miguel dos Santos
por P. M. Bardi

Miguel dos Santos, temperamento contemplativo, enamorado pelos mitos do Nordeste do Brasil, região regurgitante de lendas populares e de práticas espíritas, onde confluem antigas influências africanas, o primitivismo e a memória colonial. Nesta abundância de misteriosas cenas, Miguel libera sua fantasia, num frenético élan de surpresas. Sensível, francamente sentimental, inquieto seguidor de imagens-fantasmas, porém representando figurações de um patrimônio poético que lhe guia a mão. Não se trata do abstrato no senso desta moderna tendência, mas da representação de fabulosos eventos próprios da tradição moral de um povo.

As interpretações são de um pintor, também dedicado à plástica popular, a cerâmica, evidenciando uma vocação de admirável feitura, tendo em conta o inato misticismo, de tempos remotos, inserindo-os na atualidade; um caso bem raro, escolhido para que se veja na Europa um dos aspectos mais reveladores da arte brasileira. Não é o caráter etnográfico, mas num sintetismo lírico de singulares impulsos emotivos: uma criatividade autônoma neste setor da arte popular que no Brasil afirmou em música, o samba.

Todas as imagens que concebe e faz são tiradas do fundo da alma coletiva que por ele passe, e prossegue. Sua escultura, modelada em cerâmica pintada, porém, se submete a uma outra solução plástica. É a depuração de sua pintura, realizada com um mínimo de elementos para a composição formal. Não se foge do compromisso arquetipal que é atendido, sempre através da síntese. Para nossa interpretação Miguel Domingos dos Santos é um intérprete do comportamento arcaico brasileiro, resultante do sincretismo católico-africano, iniciado com a colonização e ainda hoje aparente em determinadas áreas e em certos grupos sociais.

Clarival do Prado Valladares

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