Paulo Laender

13 de novembro a 06 de dezembro de 2003

Sem Medo da Beleza
por Olívio Tavares de Araújo

Há vários anos, a arte mineira tem sido uma caixinha de surpresas. De vez em quando, do “profundo mar” de Minas (mar cuja existência foi descoberta pelo poeta Drummond, que entendia mais de mineiridade que qualquer outra pessoa), aparece no Rio ou São Paulo um artista surpreendente pela qualidade, maturidade e justeza de propósitos. O exemplo mais recente é Paulo Laender. Tem uma obra e uma trajetória perfeitamente cumpridas em sua terra, mas como Belo Horizonte fica a quatrocentos e tantos quilômetros do principal eixo cultural, ainda é insuficientemente conhecido por aqui.

Apesar de mineiras na execução, as esculturas de Paulo Laender não tratam de mineiridade nem bebem em suas fontes. Não têm, por exemplo, a atmosfera de coisa engenhosa ou pequeno artefato que está hoje presente em boa parte da produção tridimensional em Minas. Também não recorrem a materiais pobres, nem descendem, enfim, de uma espécie de minimalismo que, sob o influxo de Amílcar de Castro, se implantou nas gerações que o sucedem. São cosmopolitas, internacionais, universais – e um pouco aristocráticas. Criam aquelas pontes de que só a arte é capaz, ligando por cima do tempo pessoas, lugares, formas e idéias das mais remotas. Com seus revestimentos metálicos de cobre, as pátinas esverdeadas, os caprichosos padrões e texturas aplicados nas superfícies, os recortes e curvas amebóides, as obras de Laender podem lembrar ao mesmo tempo objetos art deco, ídolos ou sarcófagos da antiguidade oriental, formas arquetípicas – fálicas, vaginais, uterinas -, e organismos naturais, dos reinos vegetal e animal. Não se trata, a rigor, de um resgate internacional, e sim de afinidades eletivas, num artista culto e de gosto requintado.

Muito menos se trata de conservadorismo. Há dois anos, Laender escreveu, a meu ver com a mais extrema de razão: “Em arte não existem grandes e rápidas mudanças, e mineiros como somos em físico e temperamento, observamos com mais cuidado as impos(i)turas que o show internacional tem apresentado. Sabemos, de nascença, que a vanguarda está vencida e estas histórias de up to datetrash e outras, são fakes que podem servir à ilusão do fashion, nunca à arte” (Estado de Minas, 5/5/2001). Perceber tudo isso não é ser reacionário, é conservar os olhos mineiramente lúcidos para ver a realidade ao redor. Paulo Laender é contra a sacação desenfreada que assola o mundo da cultura, e além de contestá-la com palavras contesta-a com obras. Suas esculturas não têm o menor medo de serem belas, num momento em que a beleza está tão por baixo. Não têm medo, sequer, de serem elegantes.

Sabemos que não está na moda, hoje, isso de arte que gratifica os sentidos. Desde a voga da arte conceitual, nos anos 70, tornou-se imperativo ao artista produzir uma arte complicada, problemática e problematizante, que muitas vezes requer um enorme aparato verbal para se tornar inteligível, e se apóia mais nele que na relação direta entre o contemplador e o objeto. QUerer gratificar os sentidos virou quase uma heresia. No entanto, ninguém menos que Matisse assegurava: “Meu sonho é uma arte cheia de equilíbrio, de pureza, de repouso, sem temas inquietantes que reclamem a atenção; uma arte que traga alívio ao trabalhador intelectual, tanto quanto ao artista, e seja para ele um calmante espiritual, que acaricie suavemente sua alma e a tranquilize depois das inquietudes de seu trabalho”. Mesmo não sendo este o projeto de Paulo Laender, creio que ele assinaria em baixo.

Seu projeto é ao mesmo tempo mais simples e mais ambicioso. Numa escultura moderna como a brasileira, que se caracteriza sobretudo pelo construtivismo – excetuando-se Frans Krajcberg, são construtivos nossos maiores escultores, como Amílcar de Castro, Sérgio Camargo, Franz Weissmann -, ele se tornou hoje, talvez, único. Optou por trabalhar com a forma orgânica e suas liberdades – domínio onde, asseguro-lhes, é muito mais difícil acertar. Recusou-se ao jogo relativamente simples com que se podem construir bonitos objetos geométricos, e onde uns acabam se parecendo com os outros. (Não que seja, evidentemente, o caso dos mestres citados; mas é o caso de todos seus epígonos). Laender investe numa expressividade medida mas afetiva, que deseja seduzir mais que impor rigores ao olhar. É expressivo não expressionista; neste ponto, difere de Krajcberg. Espírito equilibrado e apolíneo, não quer dar vazão a demônios subjetivos (que nele aparentemente nem existem), e acerta plenamente ao criar um tipo de beleza objetivada, resultante de uma fantasia levemente barroca, mas sem o patetismo do barroco.

Peço permissão para concluir com uma nota pessoal. Não ouso dizer há quanto tempo, mas garanto que éramos todos muito jovens, terminando a adolescência. Entre meus alunos de história da arte na Escolinha Guignard, encontrava-se um rapaz chamado Paulinho. Embora separados por aqueles 400 km que às vezes parecem muito mais, pude seguir, daqui, o que ele ia inventando, por lá. Sem sair de Belo Horizonte – pelo contrário, resistindo numa cidade de condições culturais comparativamente adversas -, ele construiu uma obra vasta, tranquila e sobretudo originalpessoal. É uma enorme raridade, no Brasil. Por essas e por outras é que, passadas algumas décadas, seu antigo professor vem cumprimentá-lo com indizível prazer, trazendo-lhe de público seu aplauso.

Obras participantes