Ranchinho

21 de agosto a 21 de setembro de 2018

A Hora e a Vez de Ranchinho

de Roberto Rugiero

É possível avaliar a conduta de um profissional do mercado por sua capacidade de reconhecer a importância de um artista, mesmo que este não faça parte do que habitualmente é o seu território de ação. Ao firmar com a Ricardo Camargo Galeria parceria para a realização da mostra de Ranchinho o ecletismo lúcido que tem caracterizado sua atuação acabou por ser decisivo.

Ranchinho é o codinome de Sebastião Teodoro Paulino da Silva, nascido em Oscar Bressane SP e falecido em Assis SP em 2003, poucos meses antes de completar 80 anos. Oligofrênico e deficiente físico, analfabeto e além do mais exibicionista sexual, Ranchinho teve uma vida penosa, uma saga tocante de superação. Grande parte  dela decorreu em absoluta solidão e em condições de  extrema pobreza. Sobrevivia de  pequenos favores e do comércio de descartes achados  pelas ruas, ou do auxílio de  pessoas compadecidas de sua situação. Manquitola e afásico, costumava perambular  empurrando uma carriola na qual acumulava materiais rejeitados e os armazenava  num rancho abandonado – daí seu apelido – onde, desprovido de luz e de água, se abrigava. Órfão de pai logo ao nascer e depois, ainda na infância, de mãe, criou-se nas ruas, livre, em constante movimento e causando medo a muitas mocinhas da  cidade, a quem exibia suas partes intimas. Acompanhava todos os enterros e quando não era  escorraçado, comparecia a batizados e casamentos. Sofreu agressões, foi parar na cadeia e era o bufão, o bobinho da cidade. Mas Ranchinho sabia desenhar e o fazia com compulsão e constância. Há testemunhos de que à noite, quando se recolhia, trazia papéis, caixas e embalagens, e à luz do lampião de querosene, em meio a uma indescritível desordem, desenhava. Presenteados às pessoas com quem tinha contato, esses desenhos chamaram a  atenção do corretor de seguros José Nazareno Mimessi, que passou a apoiá-lo fornecendo cadernos e convencendo pessoas sobre o talento desse potencial artista. Quando uma vez Nazareno teve ideia de lhe dar um estojo de guache, propiciando a única lição técnica que recebeu na vida, Ranchinho quase imediatamente se pôs a criar uma obra espantosa, de grande riqueza cromática e correção narrativa. Estava aberto o caminho para sua reintegração à família e logo granjear respeito, fazer exposições e em determinado momento passar a pintar em acrílico. Acabou por tornar-se a pessoa mais importante da cidade.

A meu ver Ranchinho é um caso tão extraordinário e profundo quanto o de Artur Bispo do Rosário. Ambos fizeram da invenção artística a maneira de se situar no mundo. Embora não conhecesse nenhum pintor, nunca ter pisado numa galeria ou num museu, nem ter tomado lições, Ranchinho se expressa porque tem necessidade de criar e se comunicar. Seu trabalho nos causa assombro pela força dramática e poética  das  imagens. Sentimo-nos de imediato invadidos pelo que George Steiner chama de “instantes milagrosos de iluminação e acuidade visionária”. Nenhum outro artista brasileiro, salvo José Antonio da Silva, fez uso de um repertório de imagens tão variado e exuberante como ele. Em cenas do cotidiano, corriqueiras, pelas quais passamos sem notar, Ranchinho percebe e nos revela a presença do sensível e do poético. A vida do campo, o trabalho, as crianças, são temas que seu olhar vê de maneira grandiosa. Sobretudo os animais. Ele os conhecia como ninguém, parecia ter uma convivência fraterna com eles. (Curioso notar que São Francisco é o padroeiro de Assis, onde Ranchinho viveu a vida inteira). Sua copiosa obra sobre o circo, outro assunto que o fascinava, não tem paralelo na arte brasileira.

É um artista muito identificado com o cinema e a fotografia. Cada quadro é como o fotograma de uma cena, em stop motion, na qual estamos inseridos, cientes do instante que a antecede e de sua sequência. A riqueza cromática e estilística revela um parentesco natural e espontâneo com os impressionistas e os nabis. Por vezes suas cenas oníricas têm certo viés expressionista. Mesmo quando aborda um tema sem personagens, há ali uma humanidade intensa, tangível e subjacente.

Muitas pessoas ligam a obra de Ranchinho à de Van Gogh. Um professor de sua cidade chegou a chamá-lo de “o Van Gogh feliz”, referindo-se ao deslumbramento pelo mundo e pela vida, comum aos dois artistas, em que pese as diferenças de contexto e a dimensão de um e de outro. Ranchinho era um homem constantemente divertido. Quem o conheceu não esquece seu admirável humor, a teatralidade infantil com que se fingia de bêbado, imitava animais ou sacava um revólver imaginário e atirava primeiro. Esta é uma coleção de obras que comecei a selecionar desde meados dos anos 1970 e expressa momentos muito altos da criação do artista. Sonho ver o dia em que um grande Museu faça uma mostra abrangente de Ranchinho com um número expressivo de obras. Seria uma justa homenagem e uma constatação do que existe de mais refinado na arte figurativa brasileira de caráter espontâneo. Quem sabe este seja o prenuncio.

 

Junho 2018

Obras participantes