Recortes de Coleções

05 a 28 de maio de 2011

Recortes de Coleções
por Ricardo Camargo, colaborou Roberto Comodo

Com a atual exposição a Ricardo Camargo galeria apresenta um significativo acervo de 54 obras de arte moderna e contemporânea brasileira, muitas delas inéditas e que estavam fora de circulação ha mais de 30 anos. A mostra, que reúne 35 artistas, surgiu de apurada seleção realizada em três coleções particulares. O cuidadoso garimpo foi realizado por este galerista em conjunto com o colecionador Bruno Musatti, cujo acervo foi tema da pioneira Recortes de uma Coleção, exibida em abril de 2010 com grande sucesso.

Agora, abrindo este catálogo, desponta entre os destaques o resplandecente mármore da escultura Ovo, de Sergio Camargo, realizado entre 1988 e 1990 e que fez parte de sua última mostra. Uma peçaa rara, pois Camargo só fez quatro semelhantes, duas brancas e duas pretas, com orifícios diferentes, Ele é um contraponto ao belíssimo Torso Feminino, do modernista Victor Brecheret, de 1940, em terracota, nunca exibido, e pertencente a mesma linhagem de suas famosas As Graças, em bronze, que estavam na Galeria Prestes Maia, em São Paulo.

Outra raridade é a pintura acadêmica Retrato de Velho, realizada pela futura modernista Tarsila do Amaral em 1919. Também expoente do modernismo brasileiro, Ismael Nery surge na exposição com dois enigmáticos óleos – os famosos Auto-Retrato-Cristo e Auto Retrato Satânico, ambos de 1925 e há 44 anos pertencentes a mesma coleção. Nery ainda é autor de três deslumbrantes trabalhos em nanquim sobre papel, realizados entre 1928 e 1930: CasalA Noite e As Mãos, este último exposto em Washington em 1980.

Outros excelentes papéis são assinados por Candido Portinari, Di Cavalcanti e a própria Tarsila do Amaral. De Portinari – que está presente na mostra com um par de Marinhas de 1928 – são exibidos os carvões Mulher Sentada, de 1936, um esboço para o mural do prédio do Ministério da Educação e Cultura, do Rio de Janeiro; e Cabeça de Índio,de 1937. Di Cavalcanti comparece com delicados desenhos feitos nos anos 30 e 40 e Tarsila com um esboço de Saci, cujo guache foi exibido em Paris numa mostra de 1926.

A partir do modernismo Recortes de Coleções entra nos efervescentes anos 60, com a vanguarda da arte contemporânea brasileira representada por Antonio Henrique do Amaral, Claudio Tozzi, Carlos Vergara, José Roberto Aguilar, Rubens Gerchman, Roberto Magalhães e Tomoshige Kusuno. A ironia e a contestação política surgem nas obras de Henrique Amaral (Os cantores do iê,iê,iê), Tozzi (PANELADEPRESSÃO), Vergara (Cartão de Natal) e Samuel Szpigel (Movimento Estudantil).

Na década de 70, além da contundente escultura de José Resende, um refinado humor e elaborado jogo poético aparecem nos trabalhos de Nelson Leirner (Caderno Paletó), Rubens Gerchman (Locomotiva) e Luis Paulo Baravelli (Pequeno Egito). Um caminho pictórico também trilhado por dois expoentes da nova figuração, José Roberto Aguilar (Destruidor de Mitos) e Tomoshige Kasuno (visto aqui em uma tela sem título de 1967), numa linguagem de grande impacto visual. A mesma intensidade obtida pela grande tela Paisagem Cósmica 2, Danilo Di Prete, que ganhou o 1º prêmio de pintura nacional da 8ª Bienal de São Paulo, de 1965.

Outra trajetória, a do mestre Wesley Duke Lee, ressurge em Recortes de Coleções num avanço cronológico de linguagens. Ao figurativo óleo Rabino, de 1953, feito em Nova York, segue-se o desenho Nu Feminino e a aquarela d’apres Rodin com Ligas, ambos de 1962. Em seguida, o tríptico O Salto do Xaman, de 1982 – realizado com fotos, barbantes, pena, fita adesiva, pastel e acrílica – conduz à maquete da majestosa instalação Fortaleza de Arkadin, exibida em 1990 na 44ª Bienal de Veneza.

Construída com 144 toras de madeira bruta de 4 metros de altura, fechada e inacessível, com muros dispostos na forma de uma vulva, a Fortaleza de Arkadin resgata a mitologia particular de Wesley, sintetizando todos os seus trabalhos realizados em quase 40 anos de carreira artística. Além de sua maquete, a mostra traz as plantas. os registros de imagens da sua concepção e a instalação na Bienal de Veneza. Um projeto ousado pronto para ser executado novamente.

Entre outras obras, a exposição apresenta uma pioneira peça de Franz Krajcberg, Raiz, relevo de madeira pintada realizada em 1969, que se contrapõe à inusitada escultura Sonora de Leon Ferrari, de 1984, feita em aço. Um famoso bronze xipófago de Edgard de Souza e a recriação de Vick Muniz do célebre quadro de Courbert, A Origem do Mundo fecham os anos 90, que ecoam a inovação de Marepe com Cabeça Acústica, feita com bacias de metal, borracha e dobradiça.

Com estas obras especiais, que fogem do lugar comum, Recortes de Coleções aposta na originalidade e no vigor da arte moderna e contemporânea brasileira e no surgimento de novos colecionadores, com um olhar cada vez mais apurado.

 

Obras participantes