Rodrigo de Haro

01 a 31 de outubro de 1985

Arte Adivinhatória de Rodrigo Haro
por Jacob Klintowitz

Há uma nova qualidade de luz, claridade inesperada, iluminação interior a conferir outra dimensão à pintura de Rodrigo de Haro. O assunto é o mesmo. O artista inventa paisagens, naturezas mortas, personagens narrativos e, com este assunto, recoloca as questões do tempo e da morte. Jogo de adivinhações. É um baralho de Tarô. É a dança grave e compadecida da vida, da morte e do futuro. Tudo, para o artista, é só uma matéria. Não há valores superiores na vida. E na morte, nesta aspiral imagética, se contém o futuro e o início. A pintura está impregnada de outras qualidades. O poeta debruça-se sobre a vida com menos curiosidade e maior reflexão. O poeta já fez a sua poesia sobre a vida e sobre a morte e, ao fazê-la, descobriu a sua natureza. Agora ele conhece as cartas que tem nas mãos. Hoje organiza um olhar reflexivo sobre estes temas de sua predileção. O profeta distribuiu as cartas do Tarô e penetra nos segredos de um tempo imutável. Certamente os temas do artista são estes. Mas eles não são tristes ou sombrios. A consideração é sobre a condição humana diante da natureza do universo. Não é uma pintura puritana. O artista constata a realidade que a sua pintura lhe ensinou. Ela o conduziu para além de si mesmo e ele, ao contrário de boa parte da pintura atual, recusa-se a contemplar o seu próprio ego. O centro do universo desta pintura não é o umbigo do artista. Há trabalhos cujo dominante é o negro. E há pinturas onde os verdes e amarelos dominam o espaço. São os verdes e amarelos do sul, mais severos e crepusculares. Mas, além das simples aparências, surge uma iluminação que domina a imagem. Como se os olhos de Rodrigo de Haro conferissem aos seus pincéis uma matizada maneira de ser. O pintor vê o mundo mais claramente. Não tenho dúvidas de que o artista coloca, nos primeiros anos de trabalho, todos os seus assuntos principais. Depois, ao longo de sua breve vida, ele adquire os meios para aprofundar as questões iniciais. A arte é sempre o resultado deste esforço em alcançar os recursos que permitem contar a sua visão. Nunca o artista estará satisfeito. É o que o força a caminhar. Mas a cada patamar, ele sabe melhor o seu desejo e tem a percepção de sua missão. Trata-se de reescrever o alfabeto da humanidade e formar a sua percepção. O artista não apenas nos ensina a ver, como inventa os nossos olhos. É notável como Rodrigo de Haro, baseado na revolução art decô e na ironia nouveau, ele ainda acrescentou uma alegria triste e brejeira das serestas e uma gravidade metafísica. Como na arte adivinhatória do Tarô, as imagens tem uma linha intrigante e os padrões ancestrais. As figuras do oráculo. As figuras dizem tudo, mas é necessário se por de acordo com elas e permitir que a intuição ande a par com a ancestralidade subjacente. Em Rodrigo de Haro as imagens são mutuamente reforçadas. Ele utiliza, como linha mestre, uma expressão do início do século. E como proposta imagética um sistema de permutação adivinhatória. Estes elementos são unidos pela memória portuguesa e pela vivência insular de Florianópolis, antiga ilha do Desterro. O resultado destas apropriações e reforços associativos e sucessivos é uma obra de grande vigor e contemporaneidade. É, igualmente, uma lição. Nós não necessitamos forçar a contemporaneidade. O artista é, naturalmente, contemporâneo. É oráculo da espécie.

Obras participantes

Il Trionfo di Amore i Psiquê
por Rodrigo de Haro

Tua biografia duas datas

Três imagens: o relâmpago

Na montanha, a cobra

Emoldurada nos dedos, o mar

Com seus escudos.

Ilhas são funestas. Ilhas são

Geradoras de alegria pânica e

Cingem o caçador para sempre

Dado que todo homem

É ilha de carnavais por vilas

Maneiristas. Frios pierrôs

Passam cadenciados no espelho.

Dança fria

De outra geometria.

Tal é o destino das imagens

Como o das folhas: correr

Rapidamente

Paixão da plenitude

O vácuo. Paixão da Forma, o Nada.

Paixão das máscaras

As cinzas.

 

Marfim toque seco de pelúcia verde

Boa noite. Linda área!

– O del mio dolce ardor

Serafins, trágicos, fauna

Do palco são arrastados

Pela trompa de Ur, giram

No pátio da melancolia saturnina.

 

Teu emblema é o naipe

De ouros mas tua alma é teu pé

Andarilho iluminado na gruta

Eu sei. E a sombra esguia

Da atriz estrangeira paira

Borboleta, escura borboleta.

Extático direis

Que sou imortal.