Sylvia Pinho de Almeida

07 a 14 de dezembro de 1998

Ao longo dos anos 70 e 80, participei com frequência de júris de salões em todo o Brasil; sempre me interessaram muito, como forma de conhecer a produção emergente no nascedouro, antes de filtrada por galerias e ou museus. Lembro-me muito bem de que cada vez que aparecia em julgamento um conjunto de fotografias, meus colegas de júri reagiam como se se tratasse de uma categoria com padrões de qualidade próprios e à parte, com critérios de juízo distintos dos demais. Muitos chegavam a dizer que “não entendiam” daquilo e alguns, certamente por causa de minha experiência com cinema e vídeo, se louvavam explicitamente em minhas opiniões e decisões.

A explicação é simples. Ao longo de sua história e de sua presença nas artes visuais, a fotografia começou a servir também como suporte (no sentido físico e técnico do termo) para propostas de outras naturezas; nesses casos, foi-se tornando cada vez mais num instrumento de registro e cada vez menos arte fotográfica. É o que acontece, por exemplo, com as muitas fotos de artistas nus na atual Bienal de São Paulo, as quais denunciam também, aliás, o que a meu ver já se tornou uma nova academia. O que tinham a dizer, essas fotos quase sempre mal fotografadas de gente feia e corpos nada atraentes (em sua origem, ligadas a um trabalho de ordem conceitual) já o disseram há um bom tempo. Cá entre nós, achei-as apenas uma chatura.

De qualquer modo, nos salões o que habitualmente se propunha aos júris era mesmo arte fotográfica – isto é, uma re-produção (evidentemente elaborada, “re-inventada”, não apenas mimética) do que podemos perceber com nosso olhar – seja a paisagem nevada à distância, seja a expressão nas rugas vincadas em um rosto, seja a bela curva sensual de uma coxa dobrada, sejam as formas coloridas de um cristal de quartzo visto ao microscópio; tudo feito através do recurso básico da camara obscuro e uma superfície sensível à luz, e com certas ambições estéticas. Não havia nenhum mistério nessas fotos, e meus colegas assustavam-se à toa. Ou eram boas ou más, bem feitas ou mal feitas, da mesma maneira que uma pintura (independentemente de seu estilo) o pode ser. Exceto quando eventualmente propusessem deliberadas rupturas e insubordinações (mas isso teria de perceber-se com clareza), deveriam ser apreciadas e aceitas (ou não) segundo critérios próximos aos tradicionais, utilizados para as demais técnicas: composição (enquadramento), iluminação, contraste, cor, etc. Faltava-lhes apenas a matéria, o relevo da tinta, o gesto do pintor apreendido no mover-se do pincel. Mas até isso a fotografia pode sugerir; à sua maneira tem uma matéria, visto que modifica as texturas dos objetos conforme a maneira de os iluminar e captar.

Eu havia prometido à autora da presente exposição – que vem também a ser minha amiga Sylvia Pinho de Almeida – que escreveria neste catálogo um texto curtinho, e sem enveredar por teorias. Mas acabei sentindo necessidade dessa longa introdução, sem a qual não me seria possível deixar absolutamente claro que Sylvia se propõe e o que enxergo em seu trabalho. Permitiam-me, pois, concluir o meu histórico.

Desde tempos pioneiros, a fotografia serviu também como registro para realidades imaginárias, construídas pelo próprio autor. E sempre houve, como recurso de criação, a interferência no processo, quer no ato do registro, quer depois sobre os suportes impressionado em que ele ficou capturado, quer enfim nos momentos da copiagem e acabamento. Disso tudo resultaram, por exemplo, a fotografia dos surrealistas, as fotomontagens e colagens. Porém, como sói acontecer com as vanguardas, a não ser nos casos exemplares, entre os grandes talentos, toda essa produção não ortodoxa parece hoje mais datada que a simples foto-clássica-registro. Não ficaram (nem ficarão) velhos os trabalhos de um Stieglitz, um Steichen, de Jacques-Henri Lartigue, de Brassai, e enfim do sempre inspirado e instigante Cartier-Bresson.

Posso agora falar de Sylvia e ser curto e claro. A esse último universo – a foto-clássica-registro – pertence o que ela se (e nos) propõe. Não é pouco, não é demasiado, e dentro desse escopo se desenvolveu muito da melhor arte fotográfica, como a dos autores acima citados. Por um lado, contém e resume o que Sylvia de fato domina inteiramente, que é fazer um recorte significativo do mundo exterior; resolvendo-o em termos técnica e esteticamente adequados; isto é, com os tais valores de composição, enquadramento, luz, cor, contraste, etc. Por outro lado, indica certa contenção (e sabedoria) de quem não deseja se precipitar nem dar o passo maior do que a perna. Sylvia está certa. Para mim, nada menos convincente e mais incômodo que as adesões oportunistas aos pseudo-vanguardismos à la mode, que acabam resultando em reis nus. Na presente exposição não há “sacação” nem improviso.

Outrossim, para que nossos inimigos não digam que este texto se fundamenta na simpatia, seja nele dito desde logo o que a meu ver ainda falta a Sylvia Pinho de Almeida: a confissão. O colocar-se mais a si própria no trabalho, a sua visão do mundo específica, no sentido do termo alemão Weltanschauung, o que ela pensa e não apenas o que ela vê do mundo. Embora à primeira vista pareça uma arte objetiva por excelência, a fotografia – tanto quanto qualquer outra – é também, forçosamente, fruto de subjetividades de seu autor. Todo retrato é também auto-retrato, porque trai um conjunto de valores não só estéticos, porque exprime um indivíduo. Nisso, asseguro, Sylvia ainda pode progredir; é uma questão de coragem e empenho.

Onde ela não precisa progredir (embora isso vá sempre acontecer; visto que a prática forçosamente aperfeiçoa o domínio de qualquer técnica) é no gosto seguro, no saber olhar para seus temas e enquadrá-los, na atenção para a sutileza e o detalhe, e no saber que a fotografia nunca é um mero simulacro do real: é a descoberta e reinvenção dele. Numa frase famosa, disse Klee que a arte “não reproduz o visível; ela torna visível”. É exatamente o que faz Sylvia Pinho ao dirigir o seu (nosso) olhar, por exemplo, para uma série de placas encontradas aqui e ali, resgatando-as da indiscriminação e infundindo-lhes uma carga nova de interesse.

Olívio Tavares de Araújo

Obras participantes