Vanguarda Tropical

04 a 31 de maio de 2007

Vanguarda Tropical
por Ricardo Camargo, colaboração de Roberto Comodo

A contestação dos efervescentes anos 60 surge com toda sua ousadia e inovação nesta histórica exposição da Ricardo Camargo Galeria, que reúne 44 obras – 11 delas inéditas no mercado – de oito artistas plásticos expoentes da vanguarda brasileira da época. Vigor, originalidade, transgressão e ruptura com a arte do passado estão representadas na criteriosa seleção de trabalhos de Antonio Dias, Antonio Henrique Amaral, Claudio Tozzi, José Roberto Aguilar, Roberto Magalhães, Rubens Gerchman, Tomoshige Kusuno e Wesley Duke Lee.

Afinidades e trajetórias comuns juntaram na década de 60 este time de artistas de primeira linha. Rubens Gerchman conheceu Roberto Magalhães e Antonio Dias na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, em 1962. Três anos depois, a antológica exposição Opinião 65, organizada pelos marchands Jean Boghici e Ceres Franco no Museu de Arte Moderna (MAM) carioca, reuniu artistas europeus e brasileiros em torno da Nova Figuração. Entre eles, participaram da mostra Antonio Dias, Aguilar, Gerchman, Wesley Duke Lee, Tomoshige e Roberto Magalhães.

Na criativa agitação dos anos 60, um panorama também comum aos artistas plásticos brasileiros foi a explosão internacional da Pop-Art norte-americana, com a utilização de novas técnicas e materiais, como o acrílico e o plástico, e a incorporação de objetos às obras. Mas diferente do Pop americano, associado aos mitos da comunicação de massa, a temática dos trabalhos nacionais retratam o subúrbio, o futebol e o Carnaval, ícones da sociedade industrial, o General, a Miss, as questões urbanas, a ditadura militar brasileira, o desemprego e as crises sociais e políticas do País, passando pela viagem dos astronautas à Lua e a morte de Che Guevara.

Esta nova figuração ganhou diferentes traços, cores e formas no Brasil, traduzida, por exemplo, no trabalho complexo e visceral de Antonio Dias, na ácida crítica política expressionista de Antonio Henrique Amaral ou na sofisticação erudita do grande mestre Wesley Duke Lee e no universo lúdico e fantástico de Roberto Magalhães. Mesmo Tomoshige Kusuno, nascido no Japão e que lá fez parte do Grupo de Vanguarda, de orientação neodadaista, manteve em suas obras, aponta o crítico Paulo Sergio Duarte, a gestualidade e a saturação da superfície, características do abstracionismo, mas que iria se desdobrar para fora do espaço, em ousados relevos, como no imponente Parceiros a 45º, realizado em 1969.

Além do inegável valor artístico dos trabalhos expostos, esta mostra é emblemática, marcando um contínuo contato de 40 anos deste galerista com estes artistas da vanguarda nacional e suas obras, iniciado ainda à época da galeria Art-Art, criada em 1966, em São Paulo, e na Galeria Ralph Camargo que a sucedeu, onde iniciou a sua carreira.

Entre os artistas e as obras lançadas por ambas as galerias figuram nesta exposição os trabalhos de Claudio Tozzi, de forte impacto, expresso na pintura Ocorrência 3114, de 1967, e a primeira versão da obra Jacaré-Ipanema, realizada em 1966 por Rubens Gerchman, autor também de uma fervilhante e atualíssima Terra-Raiz, de 1971. Também estão presentes na atual mostra duas antológicas obras de Wesley Duke Lee que participaram da exposição Iconografias Botânicas, em 1970 e que, entre outras inovações, incorporava plantas às telas – Retrato de Samuel ou a Respeito de Vovô, ladeado por um vaso de cactos, e a caixa tridimensional Retrato de Sérgio e Leila ou A Respeito do Casal.

Assim como a série de Antonio Dias The Tripper, de 1972, e as grandes pinturas feitas em 1971 por José Roberto Aguilar em Londres com pistola de ar comprimido, como a psicodélica Paisagem Aérea. Antonio Henrique AMaral comparece com significativas obras, destacando-se a eloqüente pintura Incomunicação, de 1966, repletas de ávidas bocas flamejantes que parecem dialogar com O Homem Debochado, realizado por Roberto Magalhães uma década depois, em 1976.

Nesses doze anos de existência da galeria realizamos várias exposições de grandes nomes do modernismo brasileiro, além das selecionadas edições do Mercado de Arte. Neste período, também apresentamos, com sucesso, mostras individuais de Tomoshige Kusuno (1995), Rubens Gerchman (2000) e Claudio Tozzi (2002), divulgando a diversificada e rica trajetória desses artistas representativos da vanguarda dos anos 60.

Através de um consistente trabalho de pesquisa e seleção feito ao longo dos anos pelas casas de leilões e galeristas, nos anos 90 os modernistas voltaram a ocupar o seu patamar original no mercado. Ao mesmo tempo, impulsionada pelos ventos da globalização, a novíssima geração de artistas brasileiros da década de 80 teve suas obras amplamente divulgadas pelas galerias no circuito de feiras internacionais.

Neste cenário, situada entre esses dois pólos, a revolucionária geração de artistas dos anos 60, premiada em inúmeras mostras, Bienais nacionais e internacionais – e que surgiu na paisagem nacional junto com a criativa ebulição estética do Cinema Novo, ao balanço da Bossa Nova e da inovação Tropicalista e das inventivas cenas dos teatros de Arena e Oficina – ainda deve alcançar uma justa valorização e ser redescoberta pelo mercado de arte. E esta exposição da Ricardo Camargo Galeria é um primeiro e decisivo passo à frente nesse sentido.

Obras participantes