Vicente do Rego Monteiro

07 de outubro a 08 de novembro de 1997

Comemorando o 2º aniversário da minha galeria, é com especial satisfação que apresento aos clientes, colecionadores e amigos, esta seleção de 21 pinturas de Vicente do Rego Monteiro, anos 1967/68 com a gentil colaboração de Carlos Ranulpho, marchand do artista durante seu último período de vida.

Há por parte de alguns colecionadores, preconceito injustificado em relação aos últimos anos de sua produção, onde ele retomaria alguns temas e características de suas obras dos anos 20, alegando que sua obra somente teria validade naquele período.

Reconheço a força do artista nos anos 20. É inconstestável a beleza de suas pinturas “dégradés”, abrangendo temas mitológicos, bíblicos, indígenas entre outros. Mas precisamos aprofundar também nosso olhar nas obras dos anos 60, onde ele suaviza e geometriza sua coerente linguagem, abordando o riquíssimo imaginário de seus novos temas, alguns tipicamente brasileiros, retificando sua originalidade incomum como verdadeiro mestre do modernismo.

É preciso considerar que o maior gênio de todos, Picasso, o precursor do cubismo no início deste século, sua melhor e mais valorizada fase, não invalida suas pinturas dos anos 50/60 apreciadas e disputadas no mercado internacional. Não esquecendo que um dos principais marchands de Picasso, Leonce Rosemberg, expôs e comercializou outro legítimo herdeiro do cubismo: Vicente do Rego Monteiro.

A maravilhosa retrospectiva do pintor, recentemente realizada no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com a curadoria e competência do Profº. Walter Zanini, mostrou toda a importante trajetória deste genial artista, tornando desnecessário acrescentar qualquer comentário privilegiando esta ou aquela fase pois ali fica claro que todas tem a mesma intensidade, cada qual com características próprias.

Ricardo Camargo

Obras participantes

Minha pintura não poderia existir antes do Cubismo, que me legou as noções de construção, luz e forma.

Como cubista sou construtivista.

Minhas influências: o Futurismo, o Cubismo, a estampa japonesa, a arte negra, a Escola de Paris, nosso Barroco e sobretudo a arte do nosso ameríndio na Ilha de Marajó.

Todo o artista, ou poeta, deve diariamente bater seu próprio record.

*Pensamentos de Vicente do Rego Monteiro citados no catálogo “Vicente-Inventor”, texto de Walmir Ayala, editado em 1979.

texto por Carlos Ranulpho

Reconstruo na memória a década de 60 no Recife. Vicente do Rego Monteiro, que teria hoje 97 anos de idade, voltava definitivamente ao Recife. Para França havia se transferido em 1911, e para registrar a importância de Vicente, bastaria citar a fase dos anos 20, em Paris, em que expôs na Galeria L’Effort Moderne, em companhia de pintores da categoria de Picasso, Braque, Léger e Juan Gris, entre outros. Seu marchand foi Leonce Rosemberg, que vendeu as obras de Picasso no período da Primeira Guerra Mundial.

Aproximei-me do artista. A partir daí a convivência nos transformou progressivamente em amigos. Realizei em 1969 sua primeira individual. Foi a partir do êxito da primeira exposição que promovi, que iniciei projeto de divulgação que lhe devolveu auto estima e vontade de trabalhar, constituindo-se, desde o primeiro momento em que começamos a trabalhar juntos, entre 1968 e 70, um dos períodos mais profícuos de sua vida, quando passou por minhas mãos tudo o que produziu, adquirindo a maioria dos quadros produzidos, e outra parte que testemunhei deixou como herança para sua segunda mulher e filhos.

Em 1970, quando organizei no Recife a segunda individual do mestre, o artista trabalhou intensamente. Era um homem revigorado. Alguns dias depois da inauguração da segunda mostra, o coração do homem de 71 anos o traiu em um momento de grande felicidade pessoal e profissional.