Wesley Duke Lee

15 de maio a 14 de junho de 2008

A Era do Filho na visão do mestre Wesley Duke Lee
por Ricardo Camargo, colaborou Roberto Comodo

Na trilha de um coerente trabalho de resgate da melhor produção da arte brasileira, a Ricardo Camargo Galeria inaugura 2008 apresentando onze selecionadas pinturas de Wesley Duke Lee, pertencentes à bela e surpreendente série O Filiarcado – Ensaio Alquímico com Jogos Infantis, composta de 29 grandes telas no inusitado formato de losangos, sustentadas no ar em cavaletes de vidro e aço. Raras, estas são as últimas obras produzidas pelo artista até o momento.

Exibida originalmente no final de 1999, por falta de espaço, os quadros da série foram expostos em três mostras sucessivas na extinta Galeria São Paulo, com os títulos de AlbedoRubedo Nigredo, referentes à alquimia. Vistas e apreciadas pela última vez na virada do milênio, as telas coroaram a rica trajetória de Wesley Duke Lee, um dos grandes ícones da arte contemporânea brasileira.

Hoje aos 76 anos, Wesley tornou-se um artista plástico completo, com domínio absoluto sobre os mais diversos meios e materiais de expressão visual. Do Desenho à pintura, passando pela gravura, têmpera, colagens, ambientes e instalações sua obra sempre foi, com sofisticada erudição, pioneira e arrojada.

Ha 13 anos a Ricardo Camargo garimpa preciosidades do modernismo brasileiro, antes vistas por poucos, apresentando-as ao mercado em mostras individuais e coletivas, como o Mercado de Arte. E desde 2000 se dedica, com o mesmo afinco, ao vigor e ousadia da nossa arte contemporânea, num processo que culminou em 2007 no sucesso da grande exposição Vanguarda Tropical.

Muitas vezes a inovação de uma obra de arte demora a ser assimilada pelo mercado. Como aconteceu com uma criação antológica do próprio Wesley, a caixa tridimensional Retrato de Sérgio e Leila ou A respeito do Casal. Realizada em 1970 – e composta por duas pinturas, desenho, escultura e arte botânica, que a transformaram numa arte ambiental, sintetizando as varias linguagens do artista -, ela foi finalmente comprada em 2006 pela galeria e adquirida no ano passado pelo Banco Itaú, que percebeu a importância da obra.

Wesley começou a dar forma à serie O Filiarcado depois de comemorar 40 anos de vida artística, em 1992, com uma grande retrospectiva no Museu de Arte de São Paulo (MASP). Nos quadros – que mesclam referências a desenhos da renascença italiana com a surpresa das pinturas rupestres – pintados com bastões de pastel a óleo numa argamassa que lembra as paredes de pedra das cavernas, crianças brincam com jogos infantis ancestrais: nadam num rio, correm, pulam sela e fogueira, atiram dardos e jogam cartas ou bolinha de gude. Ao pesquisar a argamassa, o artista encontrou uma base que deixou as telas sólidas e enrugadas, onde deu vida às figuras, aproveitando rachaduras e relevos.

Wesley levou quase 20 anos para pensar o conceito desta série de pinturas. A idéia do filiarcado, a era do filho, surgiu de conversas com a poetisa Dora Ferreira da Silva, mulher do filósofo Vicente Ferreira da Silva, de quem era amigo. Foi aí que despontou o losango. “O matriarcado é representado pelo círculo, o patriarcado pelo quadrado dentro do círculo. Já o losango, considerado uma figura de equilíbrio instável, contém os triângulos masculino e feminino, e inaugura a era do filho”, aponta o artista.

A inspiração de Wesley Duke Lee para o projeto pictórico da série que surgiu ao folhear um álbum do artista barroco francês Jacques Stella (1596-1657), com 52 gravuras de jogos infantis. Stella havia se inspirado em desenhos sobre o mesmo tema do renascentista italiano Andrea Mantegna (1431-1506). A partir daí, através de computação gráfica, Wesley refez durante cinco meses os desenhos barrocos de Stella e trouxe-os para a perspectiva renascentista original, dispondo-os, em seguida, no formato desejado por ele do losango.

As crianças brincam seus jogos ancestrais nos grandes quadros desta série que parecem flutuar no espaço, graças aos pedestais de vidro e aço feitos especialmente para seu encaixe. Eles foram agrupados por Wesley Duke Lee em etapas cromáticas que se referem as transmutações da alquimia. Em Albedo, com tons claros, predominam os brancos dourados com fundo ocre. Rubedo traz vermelhos dourados e em Nigredo, magentas dourados e enegrecidos.

Na seleção dos desenhos das telas, Wesley ainda reproduziu os jogos infantis que costumava brincar quando criança. Também criou o fundo de várias cenas, incorporando a paisagem de sua infância. Figuras infantis, objetos e cenários dançam na trama delicada dos losangos. Uma obra de plena maturidade artística, as notáveis onze pinturas da série O Filiarcado – Ensaio Alquímico com Jogos Infantis de Wesley Duke Lee, expostas agora pela Ricardo Camargo Galeria, remetem à limpidez dos clássicos e apontam para o futuro.

Obras participantes