Wesley Duke Lee

12 de dezembro de 2015 a 30 de janeiro de 2016

O impecável arrojo de Wesley Duke Lee
por Ricardo Camargo, colaborou Roberto Comodo

Um dos grandes ícones da vanguarda brasileira, Wesley Duke Lee (1931-2010) foi um artista plásticocompleto, com domínio absoluto sobre os mais diversos meios e materiais da expressão visual. Donotável desenho à pintura, passando pela gravura, têmpera, colagens, ambientes e instalações ao scanner do computador. Ao comemorar 20 anos de existência a Ricardo Camargo Galeria realiza uma surpreendente exposição com 34 obras selecionadas do mestre Wesley, feitas entre 1958 e 2003.

Simultaneamente, a Tate Modern, de Londres, na megaexposição The world goes Pop, com artistas de várias partes do planeta, exibe a pioneira e arrojada instalação de Wesley, Trapézio ou uma Confissão. Primeira arte ambiental realizada no Brasil, a obra foi exposta em 1966 na Bienal de Veneza e pertence à coleção de Roger Wright, a maior do país de peças dos anos 60 e que está em comodato com a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

No Rio de Janeiro, na Galeria Pinakotheke, Wesley participa com três trabalhos da série A Zona na mostra dos 50 anos da histórica exposição Opinião 65, que aconteceu no MAM carioca. E na recémaberta Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, se encontra pousado o seu famoso Helicóptero, de intensos vôos interiores, pertencente hoje a coleção do Masp. Concluída em 1969, a obra multimídia contava com a reação ativa do público, seguindo um conceito do dadaísta Marchel Duchamp, que Wesley conheceu em Nova York.

Na Ricardo Camargo Galeria, entre a rica diversidade de técnicas e materiais, os destaques são muitos entre as obras expostas, que vão de Cloaca Mínima, têmpera abstrata da latrina da cela onde ficou preso por três dias, em 1964; a estudo para Gingantomachia, sua última pintura, de 2003. Mas nada supera a beleza impactante da instalação O/Limpo: Anima, realizado em 1971, conjunto de objetos em papel machê, metal, tecidos, madeira, plástico, ferro, palha, terra, pedra e osso. Há uma força na mistura de materiais díspares, que contrasta com um espelho em que o espectador vê a si mesmo.

Outro ponto alto da exposição é a vibrante sutileza dos óleos com colagens montados em cinco grandes telas Cinco comentários ternos sobre o Japão – Ou obrigado Japão!, realizadas por Wesley em Tóquio em 1965. Cada uma das telas representa um elemento da cultura japonesa vivenciado pelo artista. O impacto do gesto zen aparece também na grande aquarela e nanquim sobre papel japonês A zona: o mestre – abertura, que reflete uma competição de karatê que ele presenciou em Higata, no Japão.

A mostra expõe dois desenhos da célebre Série das Ligas, de 1962, que causou um escândalo ao ser exibida um ano depois num happening no João Sebastião Bar em São Paulo. E três exemplares da série O Triumpho de Maximiliano I, de 1986, feitos com nanquim, xerox e guache sobre papel Fabriano, que retratam com delicadeza a “procura da alma do mundo”. A série é um exemplo do processo de elaboração das obras de Wesley. Os desenhos iniciais foram feitos a bico-de-pena em 1966. As colagens de xerox são de 1979 e os desenhos a lápis, nanquim e guache foram finalizados em 1986.

A exposição traz ainda dois trabalhos de 1965, Lydia pensa, Arkadin fala e o emblemático óleo zona: não ter medo de fazer história, realizado um ano depois de sua prisão. Em 1965 Wesley é premiado na Bienal de Tóquio e selecionado para a Bienal de Veneza, iniciando a sua projeção internacional. Em seguida, em Nova York, a convite do diretor do Museu Guggenheim, Thomas Messer, é convidado a expor ao lado da nata da Pop-Art – Robert Rauschenberg, Jasper Johns e Oldenburg – na Galeria Leo Castelli, em prol do grupo de dança do compositor John Cage.

Wesley voltou de Nova Iorque sob o impacto da combination painting que descobriu no porão de uma mostra de Rauschenberg. Nos anos 60 e 70 produziu uma série de quadros-esculturas que iriam culminar nos espaços de seus ambientes e que se tornaram uma das mais originais contribuições à arte contemporânea brasileira. Este seu pioneirismo foi reconhecido por Hélio Oiticica, que situou seus ambientes como um dos precursores da “nova objetividade”, lembra a historiadora Cláudia Valladão de Mattos.

Toda esta ousadia pode ser vista na mostra em obras como o tríptico O salto do Xhaman (que utiliza fotos, barbantes, pena e fita adesiva) e Ana (com carimbo, pele de cobra, cadarço, fotos e silicone), ambas de 1982. Um percurso criativo que passa pelo álbum de fotolitos com 48 mapas Cartografia Anímica, de 1980, concebido quando Wesley se encontrava retido no aeroporto de Teerã, no Irã, por não ter tomado a vacina de febre amarela. E culmina nos sensíveis scanprint, pastel e lápis de cera dos Trabalhos de Eros, Preparação para a Anunciação da Era do Filho, exibidos em 1991, que resultaria na sutil alquimia da série de telas O Filicardo, de 1999. A exposição da Ricardo Camargo Galeria evidencia que foi com sofisticada erudição, verve, estilo e impecável desenho que Wesley Duke Lee realizou toda a sua obra.

Obras participantes