A garganta das coisas

A garganta das coisas

por Diógenes Moura

Inventamos a fotografia por quê? Se vemos todas as coisas, por que inventamos fixá-las? Não é bastante vê-las, cada um do seu jeito? O que é uma fotografia se não podemos decifrá-la? Nada. Nenhuma fotografia é a mesma quando a olhamos duas vezes. É como um livro aberto: pode mudar a cada instante. O fenômeno da fotografia que muda a cada instante, como um livro aberto, é o mesmo que faz com que a figura humana transite, pertença, se modifique em signo e representação, apareça e desapareça diante do fotógrafo que terá como missão final de perpetuar uma imagem-persona ou fragmentá-la para sempre. Portanto, o fotógrafo diante da figura humana estará diante de si mesmo, não em um autorretrato, mas, sobretudo, na construção de uma imagem derradeira ou não. Esse o desafio.

O conjunto de imagens escolhido na coleção de Marcelo Cintra trata dessa relação: o fotógrafo e o outro, ele mesmo. Em situações variadas, em territórios diversos, interiores ou não, prontos para serem investigados como na imagem de Begoña Egurbide, que propõe um jogo de percepções, uma terceira dimensão a partir do inconsciente óptico que provoca uma mudança de cena onde a figura humana aparece e desaparece, avança e recua dependendo da forma e de onde o espectador se coloca dianta da imagem, numa proposta contemporânea de busca por uma “outra coisa” que seja interpretada como fotografia.

Sempre um exercício de linguagem. Que poderá ser no Pelourinho ou em Havana. E sendo assim, unir três nomes fundamentais para a compreensão da fotografia brasileira: Mario Cravo Neto, Miguel Rio Branco e Pierre Verger, o francês Fatumbi, o homem que possuía e possui para sempre os olhos de Xangô. Havana líquida nas imagens de Rio Branco, o automóvel-símbolo, o luminoso como linha do tempo, os cantos da cidade, a silhueta de um homem que quase caminha em direção à câmera do fotógrafo que o vê como uma aparição. Presença e passagem. Como nas imagens de Cravo Neto, ele, que varou as ruas de Salvador para encontrar Legbá, o semelhante junguiano de Exú que o fez transformar Laróyè numa das séries mais importantes e definitivas da fotografia brasileira: sal e iodo sobre o corpo negro, Cristo e Iemanjá barrocos e profanos.

No universo de um o universo do outro. Exu entende Verger, um mesmo campo ancestral: no candomblé de Joãozinho da Goméia ou multiplicados, Verger no plural sendo um só: em Canudos ou na Guiné-Bissau. Tudo fluxo, natureza em festa na ponta da pedra, no Porto da Barra onde Cristiano Mascaro viu o menino pular de ponta cabeça que virado ao contrário poderá ser o mesmo dorso de Tuca Reinés, longilíneo, um Botticcelli afro, o homem desdobrado no casal que Mapplethorpe levou para o estúdio. Figuras humanas que passam a pertencer à idade do tempo, porque vão do ontem ao muito além. Algo que nos pertence tanto quanto a paisagem submersa de Pedro David e Pedro Motta, os dois corpos que flutuam (não como os corpos/árvore iluminada por feixes de luz de Sebastião Salgado) nas águas que inundaram os sete municípios no nordeste do estado de Minas Gerais, para a formação do lago da Usina Hidrelétrica de Irapé, no leito do rio Jequitinhonha. As casas demolidas, as famílias devastadas. O silêncio que a imagem guardará para sempre.

A fotografia é assim, como um livro aberto: poderá mudar a cada instante.

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