Dama Paulista, Dama do Modernismo

Dama Paulista, Dama do Modernismo

por Daisy Peccinini

No conjunto da retratística de Brecheret, composta de máscaras, bustos, cabeças, retratos a meio corpo ou corpo inteiro, destaca-se o retrato de Olívia Guedes Penteado (1872-1934), denominado Dama Paulista, mármore de 1934. Trata-se uma composição singular. A decisão de Brecheret foi a de elaborar não apenas um retrato personalizado, evocativo, em memória, mas sim de atingir uma dimensão de alegoria atemporal de Olívia Guedes Penteado, imortalizando-a como a Dama do Modernismo. Nessa iniciativa, foi Brecheret pioneiro em homenagear uma das mulheres mais marcantes de nossa história literária e artística, incentivadora e patronesse da arte moderna e seus artistas e literatos.

De fato, Olívia converteu-se ao modernismo em Paris no início dos anos 1920, dos années folles, conhecendo artistas e intelectuais, e viveu toda a efervescência cultural da capital mundial das artes. De volta a São Paulo, instaurou no início da década de 1920 um famoso Salão de Arte Moderna e liderou a expansão e o debate do modernismo, reunindo semanalmente intelectuais, artistas, poetas, escritores, jornalistas e políticos. Era amiga e mecenas de várias personalidades modernistas, entre elas Brecheret, que conhecera em Paris no Salão de Outono de 1923, no qual ele foi premiado com La Mise au Tombeau (Sepultamento de Cristo). Encantou-se com a obra, desejando que ela fosse realizada em granito para o túmulo de seu falecido marido. Foi procurar o escultor em seu ateliê e, desde então, Olívia se tornou grande incentivadora de Brecheret, adquirindo várias esculturas, bem como patrocinando os catálogos das exposições dele em 1926 e 1930.

Estes fortes laços de amizade, de gratidão e de identidade de ideais modernistas impulsionaram o artista a retratar Olívia de acordo com seu relevante papel na expansão do modernismo. A escultura-retrato Dama Paulista retrata a importante dimensão cultural de Olívia, representa-a reclinada, em postura similar à de Mme. Récamier (1777-1849), retratada em 1800 na pintura de Jacques Louis David (1748-1825). Juliette Récamier, amante da literatura, foi nessa época a mulher mais admirada de Paris, promotora de um salão literário, que atraiu os principais círculos literários, políticos e artísticos. Se o escultor Brecheret encontrou convergência de valores das vidas dessas duas mulheres, anfitriãs e animadoras de salões literários e artísticos, por outro lado concebeu plasticamente o retrato, segundo seu código estético-formal de irrepreensível qualidade.

Exalta a grandeza da ação de Olívia, imprimindo à figura feminina um élan monumental e forte luminosidade. De fato, trabalha as formas torneadas em superfícies lisas, com poucos detalhes, permitindo maior incidência e reflexão da luz. É uma imagem de mulher dotada de beleza atemporal, serena e acolhedora. Reclinada, volta-se para o espaço à frente, como anfitriã a receber os visitantes, ao contrário de Mme. Récamier, que está de costas para o observador, apenas voltando o rosto. Brecheret apresenta a figura de Dona Olívia em atitude elegante e graciosa, segurando uma das voltas de seu longo colar de pérolas, um gesto que lhe era usual, como anfitriã do Salão de Arte Moderna e Grande Dama do Modernismo.

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