Significativos mestres do modernismo

Significativos mestres do modernismo

por Olívio Tavares de Araújo

Sabemos todos que a arte moderna brasileira tem uma data oficial de nascimento: a famosa Semana de 1922, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, reunindo poesia,artes plásticas e música.  Claro, todo marco desse tipo é uma convenção. A história não se faz por compartimentos estanques e sim num processo contínuo, no qual, a posteriori, o historiador é que introduz cesuras com finalidade didática. Contudo, a Semana tinha mesmo o propósito de romper agressivamente com o passado, e a partir dela instalou-se no Brasil um projeto político-estético: fazer arte nacional numa linguagem internacional e aggiornata, sintonizada com a da contemporaneidade europeia.

Di Cavalcanti e Tarsila foram os primeiros a conseguir essa síntese, ainda nos anos 20– ela mais radicalmente que ele, de início na fase pau-brasil, claramente marcada pelo cubismo, depois na antropofagia, de filiação surrealista

O mesmo projeto continuou valendo por um quarto de século, até que a Bienal de São Paulo (outro marco) introduzisse novos horizontes. Destarte o título de modernista– que originalmente se aplicou aos que participaram da Semana ou lhe estiveram próximos: Villa-Lobos, Mário e Oswald de Andrade, Victor Brecheret, Anita Malfatti, DiCavalcanti, Tarsila – pode ampliar-se e designar uma atitude, uma postura, estendendo seu prestígio a todos aqueles que chegaram à maturidade artística entre 1925 e 50. A começar por mestre Volpi. Decididamente, ninguém menos modernista, em sentido estrito, que ele. Os modernistas pertenciam ao patriciado paulista (sua Semana foi patrocinada pelos barões do café), viajavam, estavam a par do que se passava no mundo e desejavam-se de vanguarda. Enquanto isso, em 1922 o imigrante italiano Alfredo Volpi, homem simples e de poucas palavras, de pouca escolaridade, vestindo macacão e calçando tamancos, carregava os baldes de cal com que ia pintar paredes. Só surgiria para a história em meados dos anos 1930, dentro do Grupo Santa Helena, formado porartistas de origem popular, do qual ele se tornaria o membro mais ilustre.

Porém o verdadeiro talento não tem nada a ver com classe social e supera todo tipo de barreira. É consensual que a revolução basilar na pintura do século XX, o ponto de partidapara a modernidade em todas suas tendências, foi o abandono da representação realista em prol dos valores puramente pictóricos – cor, forma, matéria, gesto, pincelada –, até desaguar no abstracionismo. Por isso, basta ver o quadro de Volpi nesta exposição (provavelmente do começo da década de 40 – ele não os datava), para se ter certeza de que sua obra sempre foi espantosamente moderna, corajosa, intuitivamente requintada e bela.

Predominou a música de Villa-Lobos. A grande Guiomar Novaes, que já era internacionalmente consagrada, tocou Chopin e se retirou após o segundo ou terceiro dia, com uma carta de protesto pelo desrespeito com que a obra dele fora tratada pelo público. Misturado à seriedade, havia um clima de farra, de rebeldia, típico desse tipo de evento. Aplausos e apupos.

Mestre foi também Lasar Segall, que esteve de visita ao Brasil em 1913 e realizou aprimeira exposição moderna no país, dez anos antes de imigrar em definitivo. Judeu lituano marcado pelos pogroms e pela primeira guerra mundial, foi um humanista trágico, na verdade menos preocupado com a brasilidade que com a dor universal. Se bem que sua pintura não tenha ignorado seu país de adoção: aflorou-lhe alguns temas e certamente clareou, aqui, sua densa palheta europeia. Mestre foi, igualmente, Tarsila, que não participou da Semana porque estava estudando em Paris, mas ao voltar se integrou perfeitamente ao grupo e se tornou sua primeira-dama, inclusive casando-se com Oswald de Andrade. Por uma questão de analogia visual, logo após a obra de Tarsila aparece neste catálogo uma poderosa aquarela do mais ilustre dos muralistas mexicanos, Diego Rivera. É a imagem de uma camponesa vergada caminhando entre troncos e galhos de árvores descarnadas, os quais o engajamento social do artista humaniza e transforma em braços e mãos imprecando aos céus. Grande mestre, enfim, o escultor Victor Brecheret, autor de uma obra da mais refinada elegância. Vivendo na Europa entre 1921 e 32 foi um dos próprios formatadores do estilo art deco internacional, não um mero epígono ou diluidor dele. Um estudo cuidadoso de datas afiança tal afirmação. Abrindo uma exceção no conjunto de papéis da presente mostra, encontra-se uma escultura de Brecheret. Constitui aqui uma espécie de ícone auspicioso, já que se trata de um retrato de Dona Olívia Guedes Penteado, a grande patrona do modernismo.

Menos afortunada revela-se a trajetória de Anita Malfatti. Em 1917 fez uma exposição de obras vigorosas, marcadas pelo expressionismo alemão, com o qual convivera quando estudava em Berlim. (A propósito: no modernismo brasileiro só Anita e Segall tiveram filiação estética alemã; a grande matriz foi sempre a francesa, e dentro dela o cubismo, que Tarsila denominou “o serviço militar obrigatório do artista”). Todos sabem que nosso de resto tão querido Monteiro Lobato, pintor amador e ocasional crítico de arte, demoliu pelos jornais a exposição de Anita, chamou-a de paranoica ou mistificadora, e acabou por arrasar-lhe, junto, a vocação de vanguarda. Tímida e frágil, ela fraquejou e voltou a uma figuração de fundamento tradicional, resgatando sobretudo temas brasileiros com uma poesia falsamente ingênua. Seja como for, sua importância histórica de protomártir do modernismo (como a chamou Lourival Gomes Machado) e suas qualidades artísticas estão permanentemente asseguradas.

Também o estão as de Antônio Gomide, de formação e longa vivência europeias, que conheceu Picasso e começou sob a influência do cubismo; de volta ao Brasil, desenvolveu um estilo fortemente marcado pelo art deco, tornando-se seu representante mais típico, aqui, depois de Brecheret. É o caso ainda de Ferrignac (Ignácio da CostaFerreira), ilustrador e desenhista dono de um traço fluente e expressivo, que participouda Semana. E, enfim, o do iconoclasta Flávio de Carvalho, famoso desde que na década de 1950 desfilou pelas ruas de São Paulo vestido de saiote e com meias arrastão, lançando o traje de verão por ele inventado para o homem brasileiro. Flávio –arquiteto, desenhista e pintor original, um dos poucos autênticos quase-surrealistas,entre nós – sempre foi um contestador. Meio século antes da invenção da performance e do happening, resolveu um dia caminhar por dentro de uma procissão, de chapéu e em sentido oposto ao do fluxo, como experiência sociológico-estética que depois transformou em livro; só a chegada da polícia o salvou de apanhar. Importante é que sua iconoclastia não era para esconder carências: ele dominava as técnicas perfeitamente.

Todos os citados até agora nasceram no século XIX – são também geracionalmente modernistas. Não é o caso do mais famoso pintor brasileiro da primeira metade do século XX, com cujo nome o público identificava a própria noção de modernismo: Cândido Portinari, nascido em 1903 no interior do estado de São Paulo, filho de imigrantes italianos muito pobres. Já por isso estaria distante da Semana. Ademais mudou-se cedo para o Rio, onde fez sua carreira. Muito a ajudou o fato de que o Estado Novo, o regime ditatorial de Getúlio Vargas de 1937 a 1945, o tenha cumulado de encomendas. Entre os anos 1960 e 80 tornou-se corrente acusá-lo de pintor oficial. Está claro hoje que é uma acusação precipitada, de quem nem olhou direito para a mais ‘oficial’ produção de Portinari: o conjunto de murais sobre os ciclos econômicos, no atual Palácio da Cultura, no Rio. Mostram uma gente triste, sofrida, alquebrada sob o peso da pobreza e do trabalho. Nada têm da pintura ufanista, triunfalista, dos regimes totalitários da Europa na mesma época. Não fazem propaganda. Pode-se até dizer que são arte engajada – o exato oposto da arte oficial. Provam sobejamente a segurança, proficiência técnica e expressividade dominada de Portinari, qualidades que aparecem até no mais simples esboço.

Completam o elenco de nascidos no século XX Cícero Dias, Djanira (da Motta e Silva)e Antônio Bandeira. A mudança de Cícero para a Europa, na segunda metade da década de 30, não fez bem à sua arte. Para se tornar up to date, acabou aderindo à abstração geométrica e perdeu a poesia de suas maravilhosas aquarelas figurativas anteriores à viagem. São fantasiosas, mágicas e líricas, tocadas pelo surrealismo e não raro levemente melancólicas. Também há fantasia, lirismo e certa simplificação de formas em Djanira, motivos pelos quais sua pintura chegou a ser tida como naïf. Mas é uma leitura inexata. Observando bem, percebe-se que a simplificação em Djanira resulta de uma redução de espírito construtivista, de uma vontade de organização, não da figuração inexperta dos primitivos. Com suas tramas ritmadas de cores, o sensível Antônio Bandeira encerra este parágrafo e a exposição, sendo o único representante do abstracionismo. O dele pertence à vertente dita informal, que é oposta à geometria e se faz com a intuição, não a razão. Na verdade a obra de Bandeira, produzida após os anos 1950, já integra o novo projeto estético advindo da Bienal: abandono da figura e internacionalização.

Para o final deixei o modernista par excellence Di Cavalcanti – que teve a própria ideiade fazer a Semana –, pois cabe-lhe aqui um destaque especial. Ninguém mais em casado que ele, quando se reúnem arte sobre papel e modernismo. Se é verdade que enquanto pintor Di foi desigual, seu desenho foi sempre primoroso. Numa linguagem deexpressionismo mitigado (nada a ver, por exemplo, com o de Anita Malfatti), e influenciado pelas fases líricas de Picasso, conseguiu criar um retrato amoroso, colorido e brilhante do país. Distingue-se dos outros modernistas por seu calor e sensualidade, que embebem as famosas mulatas – seu tema predileto. Mas elas estão longe de esgotálo. Di abordou ainda o morro, o samba, o circo, o carnaval, outras festas populares, os ambientes boêmios, bordéis, paisagens urbanas, suburbanas, praias longínquas, pescadores e suas mulheres após a faina, as flores e os frutos do entorno tropical. O Brasil todo. Pintou entre quatro e cinco dezenas de obras-primas que lhe asseguram aimortalidade. Seus desenhos e pinturas sobre papel certamente estão entre os pontos altos desta mostra.

A destacar ainda nela a qualidade individual dos vários trabalhos, não apenas os de  Di. Com frequência coletâneas desse tipo se limitam a reunir assinaturas importantes, sem cuidar, realmente, de que as obras apresentadas estejam à altura delas. Aqui houve evidentemente esse cuidado, e o resultado é uma exposição supercompetente, significativa e acima de tudo expressiva de mestres do modernismo brasileiro.

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